18 | Refúgio e Bodicita – o que fazer quando tudo se desfaz?

refúgio e bodicita
Tempo estimado de leitura: 4 minutos

Segundo os ensinamentos, nossos problemas e dificuldades surgem quando perdemos o refúgio e a bodicita. Na ausência de lucidez, é fácil capotarmos – vez após vez – em cinismo, arrogância e uma dose exagerada de neurose mental, ou seja, “embolhamos” (entrar na bolha sem lucidez).

Difícil se perceber dentro da bolha, mais complicado aprender a sair sem lutar ou exagerar. O critério para sabermos se estamos avançando no caminho do giro da Roda do Darma, é a bodicita brotar de maneira espontânea.

Devido a nossa confusão usual, buscamos uma métrica plausível para medir o quanto de esforço estamos colocando nos estudos, na meditação. Se pegarmos qualquer situação, e nos perguntarmos: “como o Darma pode ajudar?

Como o Buda veria essa situação?” Direcionamos nossa energia ao que realmente importa – a nossa coragem e motivação por trás de cada ação para além das bolhas.

Refúgio e bodicita porque não temos um alarme para impermanência

Com paciência e regularidade, nós começamos a ressoar o Darma em nosso coração, sem precisarmos de um alarme no smartphone para isso acontecer. Nós perdemos muito tempo intelectualizando as coisas: “como foi? E como deveria ser?” Enquanto isso, os seres migram, sem rumo, construindo castelos de areia com base na confusão e, depois, a impermanência, vai lá e derruba tudo, sem aviso prévio.

Porém, com a visão de sabedoria, Prajna, entendemos a natureza de Buda presente em todos os seres e, portanto, podemos ver suas tragédias e dores, como algo muito particular diante da vastidão da Mandala Vajra, a compreensão da dupla realidade.

Se temos uma perspectiva mais ampla, qual a razão de seguir na vida estreitos? O esforço dos grandes mestres é comovente, elas sua a camisa para tornar palavras em atitudes. Unicamente pelo interesse genuíno de beneficiar os seres.

Refúgio e bodicita como um voto de lucidez

O voto de refúgio nas três joias, assegura a qualidade da nossa prática. O praticante precisar tomar a iniciativa de fazer o voto, por si mesmo, como alguém buscando água quando está com sede. É como se perceber doente e receber uma proposta de tratamento e recuperação. Por exemplo, podemos tomar a prática de meditação silenciosa como única medicação e pensar: “está tudo resolvido!”

Na verdade, são etapas de amadurecimento. Começamos as práticas com a mente corriqueira e caótica, vez após vez, revemos a motivação correta. Se você já está no caminho e olhar com cautela, na prece de dedicação de méritos, em momento algum, existe alguma indicação ao oscar pela sua performance como praticante ou referência ao seu nome ou de algum(a) bodisatva no Guinness book, o livro dos recordes.

O ponto central é como beneficiarmos verdadeiramente os seres. Ao vermos as dificuldades e tragédias das identidades, com algum lapso de sabedoria, além do alcance da normalidade, isso não é nosso, é a uma benção. É tomar refúgio, é bodicita em mente. No aspecto relativo, fazer isso nos ajuda a pacificar as emoções aflitivas, as obscuridades mentais e encontrar um referencial seguro além a areia movediça de samsara.

As três jóias

Nós tomamos refúgio nas três joias – Buda, Darma e Sanga. O Buda é comparado a um médico, o Darma aos medicamentos para nos curar do samsara e a Sanga é vista como a analogia dos pacientes e enfermeiro(a)s.

Sobre o tema, Drikung Kyabgon Chetsang Rinpoche diz:

Tomar refúgio é o meio pelo qual a mente é direcionada para o Dharma. As prostrações servem para superar o orgulho e diminuir o apego ao ego.

Acima de tudo, essas práticas para superar a preguiça e a indolência, e neutralizar uma recaída nos velhos padrões de comportamento que mantiveram todos os seres assegurados no ciclo de renascimentos desde tempos sem começo.

Lama Padma Samten ressalta:

“O nosso recurso principal é o refúgio no buda, no darma e na sanga. O refúgio no buda já o fim disso tudo. A gente tira isso tudo como se fosse uma roupa pesada. A gente se despe até mesmo da tarefa de salvar o samsara.

Desse lugar a gente olha a liberdade com relação a nós mesmos. Nós podemos nos despir do peso do mundo e do peso de nós mesmos sobre nós mesmos. A nossa natureza é livre de nós mesmos. A gente se despe disso ao tomar refúgio no buda.”

Sem artíficios

De fato, o refúgio se torna efetivo assim que nós cansamos de quaisquer sensos comuns e esperteza, escondidas por “debaixo das mangas” das identidades – sempre achamos um novo ideal de estratégia, urgência, propósito e expansão.

No pior caso, a identidade irá se deparar com a impermanência e o sofrimento. Se tivermos sorte, paramos um pouco nosso movimento neurótico, relaxamos.

É como ser acordado de um afogamento, retomamos a memória, nesse momento, o Buda sussurra – “Você esqueceu do refúgio? Refaça os votos e siga em frente, com a lucidez que puder.”  Isso é uma piada, claro. Não há mistério nisso, basta estarmos abertos e dispostos a olhar com mais profundidade as coisas. Sem mais adiamentos depois…

O que acontece conosco quando o refúgio amadurece?

Quando o refúgio amadurece, nós ampliamos o benefício aos seres em quatro etapas.  

  1. Com leveza interna, economizamos tempo nas aflições já que estamos mais conscientes e atentos ao carma;
  2. Purificamos e transformamos o que acontecer em acumulação de méritos e sabedoria;
  3. Por fim, seguimos rumo à iluminação, igual ao Buda foi um ser humano, ele se sentou em silêncio, em busca de um refúgio verdadeiro e com o coração aquecido por bodicita.
  4. Tal como o Buda, estamos localizando a mente lúcida, capaz de desarticular as causas do nosso sofrimento, e girou a Roda do Darma para benefício dos seres.

Ouça agora o podcast “Refúgio e Bodicita – o que fazer quando tudo se desfaz?”



Author Details

Ajudo pessoas a partir do Darma a se tornarem responsáveis por seus mundos internos. Desse modo, facilito a harmonia individual, familiar e social. Aluno de Lama Padma Samten desde 2011. Tutor no CEBB.

2 comentários em “18 | Refúgio e Bodicita – o que fazer quando tudo se desfaz?

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