Estar presente é o maior investimento que podemos fazer

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Estar presente tem sido uma aspiração atual de muitas pessoas. Isso é interessante pois temos uma espécie de epidemia em larga escala: nos sentimos exaustos, estressados, demandados e desconfortáveis consigo mesmo; Isso está gritante, evidente, não só na forma como estamos encarando a vida mas também como estamos estabelecendo as relações ao nosso redor. É como se em meio a tanta diversidade de entretenimento e dispersão mental, fosse uma busca natural olhar para dentro, em busca de uma resposta mais satisfatória para como que essas prisões surgem e qual a porta de saída para elas. 

Quando esse esgotamento das tentativas de buscarmos lá fora, por possíveis soluções para os nossos problemas surgem, nós realmente estamos prontos para meditar. A meditação então se torna uma ferramenta de contemplação sobre as experiências e situações cotidianas em corpo, energia e mente. E, naturalmente, a capacidade de localizarmos e agirmos com compaixão e lucidez diante das situações. 

Estar presente é uma possibilidade real e palpável. Basicamente, todos os nossos problemas estão atrelados a ficarmos remoendo coisas no passado ou por estarmos ansiamos por um futuro de dias esquecidos. O professor Namkhai Norbu Rinpoche fez um adentro sobre esse ponto baseado nos conselhos do coração de Longchenpa. Esse é um ponto crucial e detalhado a seguir 

A conduta de um praticante 

O caminho consiste do ponto de vista de Visão, meditação e conduta. O ponto de visão é o conhecimento da Base, a meditação se refere ao entendimento e a aplicação de métodos; a conduta é o nosso comportamento.

O comportamento é um fator muito importante para praticante. Mesmo que nós tenhamos aprendido métodos fantásticos, nós nem sempre aplicamos os métodos daquela prática ou permanecemos naquele estado. Por exemplo, se nós participarmos de uma prática coletiva que leva meia hora ou uma hora, nós deveríamos nos sentir bem. Depois disso, a prática se encerra e nós vamos para casa assistir televisão, trabalhar ou participar de algum noivado; Nós não estamos nem de longe fazendo a prática. Então nas outras vinte e quatro horas nós estamos sempre distraídos e, seguindo nossas emoções, fazendo muitas coisas, criando tensões e problemas. Assim, nossas atividades espirituais tomam apenas uma pequena porção do nosso dia. 

Se seguimos o Dzogchen nós devemos tentar fazer todas as vinte e quatro horas do dia se tornar nossa prática, e não nos concentrarmos apenas em uma ou duas horas. Praticar por uma ou duas horas é excelente mas é insuficiente para atingirmos a realização. 

Estando presente

Como fazer para sustentar vinte e quatro horas de prática de forma contínua? Uma forma muito simples é estar consciente e não estar distraído. Algumas pessoas acham isso muito difícil, enquanto outras consideram que simplesmente não estar distraído não é uma prática espiritual propriamente dita; Eles consideram prática espiritual como uma recitação de mantras e coisas similares.

Entretanto, estar consciente e não distraído é muito mais significativo que recitar mantras enquanto se está distraído. Algumas vezes, se alguém recita mantras, talvez alguém acumular algum mérito, mas a prática é muito mais relacionada a intenção da mente. Algumas pessoas recitam o mantra de Avalokiteshvara com suas vozes, mas suas mentes estão pensando sobre seus projetos e negócios.  Isto nunca pode se tornar uma prática importante. Até mesmo se alguém não recitar um único mantra mas tenta estar consciente e sem estar distraído, esse alguém imediatamente reconhece suas próprias intenções negativas. 

Bom senso iluminado

As intenções negativas nos trazem ações negativas e a acumulação de carma negativo. Estar presente pode parar esse processo. Isto é também toda a essência de toda a prática Mahayana. No Mahayana, trabalha-se com intenções; quando existe uma intenção negativa, muda-se e cultiva-se uma intenção positiva. Alguém pode fazer isso se não está distraído.

Se alguém está se sentido cobrado ou tenso, por exemplo, com consciência esse alguém imediatamente se torna consciente disso e relaxa. Assim, se alguém está presente pode descobrir todos os padrões mentais. Isto pode ser um pouco difícil; de fato, algumas pessoas que tenham seguido os ensinamentos Dzogchen por um período curto de tempo reclamam que elas estão muitas vezes distraídas, mas toda a nossa vida tem sido uma distração. 

Não é fácil sempre estar consciente e sem se distrair. Embora nós sabemos que é difícil, nós podemos aprender a estar assim se desejarmos; Existe um método para aprendermos.  Por exemplo, em um domingo quando você tem um tempo livre e sozino, você pode tentar fazer a prática de estar consciente. Você observa se você está presente ou distraído. Quando você observa dessa maneira, você discobre a forma correta sobre qual é a sua condição real. 

Você pode repentinamente ter a ideia de escrever uma carta. Quando isso acontece, você pode se tornar distraído por um pensamento e começar a escrever imediatamente. O que significa que você está distraído. Estar consciente significa que você está pensando sobre escrever uma carta. Decide escrever. Você prepara um papel e uma começa a escrever a carta, enquanto está consciente de que está pensando sobre aquilo. Você se mantém completamente consciente durante o tempo que você está escrevendo até o fim. Quando você terminar de escrever você dobra a carta e você a coloca em um envelope. Você está consciente de que terminou de escrever e está colocando a carta no envelope. 

(…)


Essa é uma tradução livre dos Comentários de Chogyal Namkhai Norbu aos conselhos do coração de Longchenpa, páginas 28 e 29.

Saiba mais

**Imagem de Helmut Strasil por Pixabay

É aluno de Lama Padma Samten. Desde 2011, tem sua atenção e curiosidade roubadas pela meditação e a sabedoria milenar do Darma de Buda. É tutor do Programa de Formação de Facilitadores do CEBB, sob orientação de seu mestre.

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