Meditação no cotidiano: como começar?

meditação no cotidiano
Tempo estimado de leitura: 9 minutos

A meditação no cotidiano aparenta ser uma das coisas mais complicadas a serem feitas. É como se a gente sentasse para meditar e quando colocasse os sapatos a experiência de meditar se esfarelasse e a pessoa então pode se perguntar: “o que está acontecendo? Quando eu sento, eu me acalmo, estou lúcido. Quando eu me levanto, as agulhas do voodo ainda estão presentes. Será que estou fazendo algo errado?

O que fazer? 

Em os portões da prática budista, Chagdud Rinpoche esclarece com maestria essa  etapa de integração entre os ensinamentos, a meditação e o cotidiano.

A prática de meditação no cotidiano

p. 55; 57.

Na prática de meditação no cotidiano, trabalhamos com dois aspectos da mente: sua capacidade de raciocinar e conceitualizar – o intelecto – e a qualidade que está além do pensamento – a natureza não conceitual e ilimitada da mente. Utilizando a faculdade racional, você contempla. Depois deixe a mente repousar. Pense, e então relaxe; contemple, e então relaxe. Não use um ou o outro exclusivamente, mas os dois juntos, como as asas de um pássaro.

Isso não é algo a ser feito apenas quando você está sentando em uma almofada. Você pode meditar assim em qualquer lugar – enquanto guia o carro, enquanto trabalha.  Não há necessidade de objetos especiais nem de um ambiente especial. Essa meditação pode ser praticada em qualquer circunstância da vida. Algumas pessoas pensam que, se meditarem por 15 minutos a cada dia, deverão se iluminar em uma semana e meia. Mas as coisas não funcionam assim. Mesmo que medite, reze e contemple durante uma hora por dia, isso representa uma hora em que você medita contra 23 que não medita.

Meditar é ficar parado?

Quais seriam as chances de uma pessoa contra 23 em um cabo de guerra? Um puxa para um lado e 23 para o outro – quem vai ganhar? Não é possível mudar a mente com uma de meditação diária. Você tem que prestar atenção a seu processo espiritual ao longo de todo o dia, enquanto trabalha, joga, dorme; a mente precisa estar sempre se direcionando para a meta final da iluminação. 

Quando você estiver imerso nas coisas do mundo, conserve sua mente naquilo que está fazendo. Se estiver escrevendo, mantenha a mente no tracejar da caneta. Se estiver costurando, concentre a mente em cada ponto. Não se deixe distrair. Não pense em cem coisas ao mesmo tempo. Não se deixe levar pelo o que aconteceu ontem ou pelo que pode acontecer no futuro. Não importa tanto o que você esteja fazendo, desde que você mantenha-se concentrado. Atenha-se a sua tarefa, procurando estar confortável em relação ao que está fazendo e, desse modo, você treinará a mente. 

Sempre se observe de forma minuciosa, reduza os pensamentos, as palavras e os comportamentos negativos e aumente aqueles que são positivos. Pense com cuidado e constantemente renove seu foco, pois você pode ficar com a mente nublada com muita facilidade. O que a meditação produz é um constante ajuste do foco. Você tem que trazer de volta a intenção pura, vez após vez. E então, relaxe a mente para permitir um reconhecimento direto e sutil daquilo que está além de todo o pensamento. 

Chagdud Rinpoche e alunos americanos

Importância de praticarmos meditação em grupo

(…)

Há, evidentemente, centros estabelecidos onde você pode ouvir os ensinamentos de Buda, lugares onde você é exposto a uma visão de mundo diferente e onde você pode meditar e contemplar em um ambiente no qual outras pessoas estejam fazendo o mesmo. É difícil  progredir sozinho, é difícil mudar se você ouve os ensinamentos apenas uma vez. É muito útil visitar esses centros, mas, independentemente de conseguir ou não fazê-lo, você precisa costurar o remendo da sua roupa com um cuidado que requer constante atenção, constante escuta e aplicação dos ensinamentos, vez após vez. Não acontece com rapidez, mas a mente pode mudar. 

(…)

Na tradição budista, há muitos ensinamentos profundos, mas o que apresentamos aqui é o doce néctar que constitui a essência de todos eles. O cultivo de um coração bondoso no cotidiano e a prática da virtude, da compaixão, da equanimidade, do amor e do regozijo são o caminho da iluminação. 

p.114

A mente comum é como um homem sem pernas, enquanto os ventos e as energias sutis do corpo são como um cavalo selvagem e cego. Essa combinação de mente e ventos é o que pode tornar a meditação tão difícil. Em nossa prática, portanto, lidamos com ambos os aspectos da mente – sua qualidade de conhecimento e sua qualidade de conhecimento e sua qualidade de movimento. 

Domando a mente com a meditação

Domar a mente pode ser comparado a domar um cavalo selvagem. Em vez de amarrar o cavalo firmemente com um cabresto curto, o que poderia amedrontá-lo e levá-lo ao se machucar ao tentar se soltar, nós o pomos em um curral bem amplo. Na realidade, ele não está livre, mas não se sente confinado porque tem liberdade para se movimentar. À medida que passamos mais tempo com o cavalo, conforme ele passa a nos conhecer e percebe que ninguém vai machucá-lo, ele perde lentamente parte do medo, e podemos nos aproximar. Uma vez que ele começa a se acalmar, podemos gradativamente diminuir o curral. 

De igual modo, quando queremos domar e pacificar a mente, não devemos tentar contê-la de início, porque irá reagir e pular de um lado para outro, como um cavalo em um cabresto curto. Em vez de deixar os pensamentos selvagens e descontrolados, construímos um amplo curral de pensamentos virtuosos, transformando os pensamentos negativos em positivos. A mente não está realmente livre; no entanto, não está completamente confinada. Assim, trabalhamos com as qualidades de movimento da mente, sua manifestação incessante. 

Integrando visão e meditação

Além da meditação analítica, praticamos um outro tipo de meditação, não conceitual, em que simplesmente deixamos a mente relaxar e reverter a seu estado natural, sem qualquer contemplação. Aqui, cortamos o apego da mente aos conceitos e ao hábito de sempre pensar no passado, no presente ou no futuro, em preferências e aversões – como se estivesse sempre agitando a água de um tanque barrento, nunca deixando que o sedimento se assente, deixando-a cristalina. Ao fazer isso, estamos trabalhando com a qualidade da mente tem de se conhecer. 

Dessa forma, utilizamos dois princípios da prática budista. A técnica não conceitual é chamada de shamata, em sânscrito, ou jine, em tibetano. Ji significa “pacificar os obscurecimentos”  e ne “manter” – referindo-se à permanência calma e serena, em que os padrões de pensamento discursivos ou dispersos são pacificados, e a mente repousa de forma unidirecional. 

A técnica contemplativa que usa a mente racional de modo hábil e inquiridor é chamada de vipashyana, em sânscrito, ou lagtong, em tibetano, que quer dizer “visão mais profunda”, enxergar além da visão comum. 

Em conjunto, essas duas técnicas são como o cabo e lâmina de uma espada com a qual cortamos até o âmago a tendência de nos prendermos à solidez aparente da experiência sujeito-objeto. Cortamos os fortes laços do apego, da identificação com o “eu” e da autoimportância, conquistando assim as emoções aflitivas e a ignorância

A iluminação é possível e está ao alcance dos nossos pés

p.115

Quando utilizamos ambos os métodos, trabalhamos no sentido de dissolver a dualidade, cortando o apego não só ao processo dos pensamentos conceituais, como também às experiências extraordinárias ou prazerosas. Com isso, cortamos os pensamentos comuns, como também as raízes dos reflexos mais densos dos venenos da mente – o samsara -, bem como os reflexos mais sutis das qualidades positivas da mente – o nirvana. Quando alternamos esses dois métodos, lenta e sutilmente nossa perspectiva começa a mudar. O que inicia como um entendimento intelectual gradativamente se torna mais pessoal e vivencial. Aproximamo-nos da verdadeira natureza da mente, além dos extremos do “é” e ”não é”, pensamento e não pensamento. 

p.116 ~ 118

Para alcançarmos a iluminação, precisamos tanto de shamata quanto de vipashyana; nenhuma das duas, por si só, é suficiente. Um pássaro precisa precisa de duas asas para voar – nós precisamos tanto de método quanto de sabedoria; tanto de contemplação quanto de relaxamento. Se ficarmos tentados a crer que poderemos alcançar a iluminação ou mesmo a felicidade simplesmente com o pensar, por mais metódico ou inteligente que seja, então precisaremos apenas lembrar de que, desde o tempo sem princípio, estamos a pensar com tamanha intensidade que nossas ideias poderiam encher volumes e volumes. Entretanto, elas não nos deixaram mais felizes; e, certamente, não nos conduziram à iluminação. Se o pensar por si, só produzisse iluminação, já seríamos budas. 

Entretanto, ter uma mente vazia também não leva à iluminação. Os ursos e as marmotas hibernam por meses a fio, e nem por isso esse estado de mente vazia os levou à iluminação. O apego à estabilidade mental pode levar a uma existência prazerosa por eras e eras em um reino da ausência de forma, no qual não há pensamento nem corpo físico; porém, quando o carma que sustenta essa existência se exaure, a mente cai em um reino inferior, experimentando sofrimento mais uma vez. 

Relaxar de qualquer meta sobre si

Permitir que a mente descanse é um processo sem esforço que revela a sabedoria inerente, não dual, que, de maneira alguma, envolve um sujeito tendo consciência de um objeto. Geralmente, quando as pessoas meditam, tentam “fazer” alguma coisa. Mas, em vez de tentar, simplesmente deixe a mente relaxar e repousar no espaço livre e espontaneamente aberto no qual os pensamentos surgem e cessam. Pensamentos do passado, do presente e do futuro naturalmente ocorrerão, mas não se agarre a eles, nem os siga, não os reprima ou os afaste.

Quando os pensamentos surgem, quase invariavelmente se originam da ignorância, do apego ou da aversão. Sua presença recorrente na mente forma a base da continuidade do samsara; portanto, em vez de ficar contrariado quando eles aparecerem, responda a eles com compaixão, compreendendo que é assim que você e todos os demais seres ficam aprisionados aos sofrimento. Pensar “Eis um pensamento – tenho que me livrar dele” é o roto falando do esfarrapado, pois ambos são pensamentos.  O objetivo não é nem pensar, nem deixar de pensar. O objetivo é revelar a essência da mente. 

A mente em movimento : como praticar meditação no cotidiano?

No começo, a mente não permanecerá relaxada por muito tempo, porque o hábito de conceituar é forte demais. Em vez de ficar preso a pensamentos comuns, contemple a persistência do próprio processo dos pensamentos e use-a para voltar a mente mais uma vez para o Darma. Redirecione seu pensamento comum, passo a passo, por meio do seguinte processo:

A seguir, faça o compromisso de aplicar a sua compreensão dos métodos do Darma de forma diligente, a fim de realizar sua aspiração. Depois, passe para a contemplação do próximo pensamento e novamente repouse a mente; então reze, gere compaixão e, finalmente seu compromisso de liberar todos os seres do sofrimento, etc. Ao seguir esse processo, você se aproximará da experiência direta da natureza da mente, a verdade absoluta que não pode ser apreendida por palavras e nem conceitos. 

Comece contemplando um dos quatro pensamentos [Nota do editor: aqui poderia ser um outro ensinamento em questão, como por exemplo: pensar, contemplar e repousar sobre um dos elos da roda da vida.] e então relaxe a mente. A seguir, reze ao lama ou a outro objeto de sua fé pela bênção de alcançar algo que seja benéfico para si e para os demais, antes que a impermanência se interponha e você deixe de ter esse corpo. Gere compaixão pela condição dolorosa dos seres e ofereça a aspiração de que todos venham alcançar liberação dos ciclos de sofrimento.

Como não estagnar na prática no cotidiano

Meditar assim impede que a prática fique estagnada, como a nata que se forma sobre o leite deixado em uma vasilha aberta. Nós a conservamos fresca a cada passo. A chave da meditação está em cortar: após a contemplação, ao relaxarmos, cortamos o apego aos conceitos. E então, para fazermos a prece, cortamos o apego ao relaxamento. Rezamos e depois cortamos; cultivamos compaixão; restabelecemos nosso compromisso e cortamos para a próxima contemplação.

Dessa forma, a mente não cai nos pensamentos comuns do samsara, e ficamos alertas e concentrados na essência da experiência. A meditação torna-se mais fresca à medida que se move, como a água de um riacho que corre, batendo de pedra em pedra, até chegar pura no final da queda d´água. 

A percepção da verdadeira natureza da mente e o processo dos pensamentos não são mutuamente exclusivos. Na verdade, são inseparáveis – um bom praticante nunca perde essa percepção enquanto come, dirige para o trabalho ou brinca com as crianças. 

O remédio da meditação

A verdadeira perícia na meditação está em não perder a sabedoria no momento da transição de um pensamento, ou atividade, para outro. Quando você está inteiramente presente em cada experiência e em cada transição, você permanece próximo de sua essência. É como pegar uma onda. Você se conserva bem no centro do movimento, junto da força da onda, enquanto ela sobe e desce. Se ficar adiante ou atrás dela, se você ficar adiante ou atrás dela, se você se separar da onda, você a cairá – você a perderá. Dessa maneira você pode aprender a pegar a onda do processo dos pensamentos sem perder a sabedoria. 

O Sutra do Bodisatva Essência do Espaço  contém um diálogo entre um bodisatva, Namke Nyingpo, e Buda Sakiamuni. O bodisatva pergunta ao Buda: 

  • Qual é o significado espiritual de liberdade e oportunidade?

O Buda responde:

     –    Quando a mente está distraída pelo pensamento discursivo, há inquietação e atividade. Quando a mente experimenta paz ao serenar o pensamento discursivo e dissipa esse pensamento no espaço básico da mente, há descanso.Além do sentido “externo” de liberdade – ter oportunidade para praticar – existe o sentido “interno” de liberdade, o potencial exclusivo do ser humano de vivenciar o relaxamento natural da mente, o desafazer do pensamento discurivo. Até que venhamos a vivenciar a liberdade nesse sentido interno, nossa prática do Darma não será muito eficaz, porque estaremos perpetuamente distraídos por pensamentos e conceitos.

Seguimos praticando!

Imagem de Michael Gaida por Pixabay

Author Details

Ajudo pessoas a partir do Darma a se tornarem responsáveis por seus mundos internos. Desse modo, facilito a harmonia individual, familiar e social. Aluno de Lama Padma Samten desde 2011. Tutor no CEBB.

3 comentários em “Meditação no cotidiano: como começar?

  1. Pingback: Criando uma rotina de prática meditativa diária | Roda do Darma

  2. brenda Responder

    Um amigo queridíssimo me disse uma vez que, se eu tivesse o mérito excelente de poder fazer perguntas sobre a minha prática, diretamente para um Lama, nunca deveria consultar outras fontes.

    • Roberto Sampaio Autor do postResponder

      Oi Brenda!
      Como vai?
      No que diz respeito a prática, vejo como seu amigo.

      E você, tem conexão com algum Lama?

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