O que fazer para que o Darma não perca o poder de transformar sua vida?

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Roberto: Como o Lama vê a questão dos ensinamentos últimos como Dzogchen e Mahamudra, em paralelo com o Ngondro?  Muitas pessoas me procuram em busca do ponto final, mas sinto que elas não têm uma base firme no caminho que permita acessar essa prática de modo direto. Sinto como se fosse mais uma ansiedade mesmo, uma soberba até.

Por outro lado, grandes mestres como o Namkhai Norbu apresentam o ponto último de modo direto. 

Qual a sua visão a respeito disso?


Lama Jigme Lhawang: A questão principal que eu vejo é bem prática. Quando somos apresentados a uma coisa que não temos a capacidade de alcançar, essa coisa perde o poder de nos inspirar, pois ela não nos impactou.

Então, esse é o registro que a gente cria na relação com algo que a gente testa e não funciona, ou seja, eu atesto: “Aquilo não funcionou para mim.” Como não me impactou, aquilo perde o poder.

Surge a pergunta: como evitar isso? Como fazer para que os ensinamentos não percam o poder que eles têm? Como protegê-los, para que eles tenham um impacto? Como conduzir e introduzir esses ensinamentos para que eles tenham impacto? Nós começamos a ver alguns mestres criando caminhos de introdução de forma que esses ensinamentos possam chegar nas pessoas e terem algum impacto. 

Saber a hora de pedir ajuda

Até onde eu vi, Namkhai Norbu Rinpoche, que é um dos poucos que oferecia Dzogchen abertamente, ele oferece toda uma estrutura de treinamento sobre o Dzogchen. Não é só a introdução à natureza da mente.

Por exemplo: a pessoa recebia a introdução: “Eita! Não senti nada. Não aconteceu nada.” Então ela procurava o Namkhai Norbu ou algum instrutor autorizado por ele e dizia: “Não aconteceu nada.” E eles iam introduzir essa pessoa a um caminho [apropriado dentro das possibilidades dela].

Ela começa a treinar shamata, vipassana, práticas de tantra com as deidades. O caminho inteiro está ali dentro. A única coisa que ele fazia era não restringir as pessoas a receberem a introdução, a iniciação de Dzogchen, sem terem passado pelo treinamento. 

Ele não criava a restrição. Ele oferecia aquilo de modo direto. Pelo menos as pessoas recebiam as bênçãos daquilo. Se tivessem acessado a experiência, ótimo. Se não tivessem acessado, então seria preciso comunicar à Sanga, aos instrutores, e eles, então, iam conduzindo a pessoa a um caminho de preparação para acessar a experiência [última].

Mesmo na linhagem Drukpa, há alguns mestres que dão ensinamentos sobre Dzogchen e Mahamudra abertamente. Um deles é Tsoknyi Rinpoche, junto aos seus irmãos (eles são todos filhos de Tulku Urgyen Rinpoche). Eles seguiram a tradição do pai. O pai deles oferecia qualquer ensinamento para quem quisesse a qualquer momento. [risos] Tulku Urgyen era assim. 

Se a pessoa viesse pedir práticas de Ngondro, ele oferecia. Se a pessoa quisesse ser introduzida à natureza da mente, assim seria. Os filhos todos, como Chökyi Nyima Rinpoche, Tsikey Chokling Rinpoche, Tsoknyi Rinpoche e Mingyur Rinpoche, todos eles têm essa característica de dar os ensinamentos de Dzogchen e Mahamudra abertamente. 

Como sair das ideias e começar a agir de acordo com o Darma?

Quando a gente recebe a instrução, depois a gente pergunta: “Como eu pratico isso?”. Se eles virem que a gente não está conseguindo praticar aquilo que eles indicaram nos ensinamentos como Mahamudra, Dzogchen, eles irão mostrar um caminho, que geralmente é o Ngondro.

Há todo um caminho que eles oferecem. Esses mestres que citei são os que mais tenho intimidade sobre essa forma de apresentar os ensinamentos. 

Eu vejo que, ao mesmo tempo, parece ser uma coisa positiva você fazer alguma conexão com aquele ensinamento [mesmo que seja avançado]. Há uma ansiedade nos praticantes, como você mesmo falou. 

Queremos receber o que há de topo, o que há de melhor, de mais profundo. E, de alguma forma, quando os praticantes conseguem acessar esses ensinamentos a partir de livros, do Youtube ou de um retiro com o mestre, quando eles recebem a transmissão dos ensinamentos, geram uma conexão.

Parece que aquela ansiedade cessa e a pessoa se dá conta: “Enfim, cheguei. Recebi o que eu estava tão ansioso(a).” A pessoa recebe a benção de ter participado daquilo, de ter ouvido sobre aquilo, de ter recebido a iniciação, as bênçãos da iniciação.

Por esse lado, eu vejo isso como muito positivo. Ressalto que essa é a minha visão sobre o tema, a minha perspectiva pessoal. 

O aspecto sutil

De forma geral, os mestres, quando introduzem os ensinamentos mais profundos, estão naquele estado, eles acessaram aquele estado de Mahamudra ou Dzogchen para poder transmitir aquilo. 

Há as bênçãos sutis que estão sendo transmitidas pelo mestre ali. Então, ele está transmitindo as bênçãos da experiência dele para quem está ali, isso tudo no campo sutil. Eu, particularmente, vejo isso como algo muito positivo.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que você estabelece essa conexão positiva com os ensinamentos, essa ansiedade se reduz e você se sente parte daquela linhagem de bênçãos de Mahamudra, de Dzogchen.

Você se sente parte daquilo, então você começa a praticar e aquilo não funciona.

Não funciona!

Dois caminhos, uma escolha

O que eu tenho visto é que os praticantes procuram dois caminhos: um deles é uma desistência inconsciente: porque a pessoa não consegue avançar ali.  Então, o organismo dela, a psiquê dela, o psicofísico, que inclui as sensações físicas, olham para o ensinamento, olham para o mestre ou para a imagem do mestre que passou aquilo e aquilo não ecoa mais.

Não tem poder de transformação e a pessoa não consegue adentrar nos ensinamentos. Ela não consegue praticar, não consegue sentir aquilo. Isso não é bom. Isso é, realmente, criar condições para que esses ensinamentos percam o poder e se degenerem.

Outros praticantes vão lá e abrem o coração. Eles vão lá e dizem: “Mestre, eu recebi esses ensinamentos do senhor ou de um outro mestre, e eu não consigo praticar. O que eu faço?” Aí, a pessoa se abriu.

O mestre vai tentar guiar da melhor forma possível a pessoa para que ela consiga gerar o campo de mérito interno e externo para que acesse essa experiência de Dzogchen e Mahamudra, de modo que essa experiência consiga se desenvolver dentro dela.

A gente reza para que esses ensinamentos sejam transmitidos de acordo com as características, capacidades e tendências de cada ser humano precioso que encontra, nessa vida humana, esses ensinamentos. Que [os ensinamentos] possam ser introduzidos de formas diferentes, sem perder o poder de impacto. Essa é a grande oração, a nossa grande aspiração. 


Gratidão pela generosidade em oferecer essa resposta.

Vida longa e prosperidade na sustentação e propagação do Darma ao Lama Jigme Lhawang.

Alegria!

Sobre o autor

Desde 2011, dedica sua atenção e curiosidade à meditação e a sabedoria milenar do Darma. É aluno de Lama Padma Samten. Praticante no CEBB Recife (PE).

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