O voto de bodisatva: o que é e para que serve?

voto de bodisatva
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O voto de bodisatva é um contrato? É um tipo plano de cargos e carreiras? É um spa interno?

Um(a) Bodisatva é tipo um(a) estagiário, um trainee, um aspirante sincero a condição de Buda. É uma atitude diante das circunstâncias. “Atitude” aqui não se refere a algo heróico, em busca de um empreendimento pessoal, não há espaço para enganos. Surge um cansaço de perder tempo nos mesmos padrões tendenciosos: o carma e seu mecanismo de fixação.

Os tibetanos simbolizam esse voto como o exemplo do pavão. Ele se nutre daquilo é negativo, como raiva, orgulho, inveja, desejo/apego. Não diz respeito a algo místico, new-age ou milagre barato, algo como  apertar um botão e estará tudo resolvido… 

O maior desejo de um bodisatva é ajudar os seres a reconhecerem quem são

O bodisatva possui o desejo de olhar para suas dificuldades a partir de bodicita. Assim, o olhar compassivo e amoroso é por natureza ausente de interesses autocentrados. “Como posso ajudar?” “Existe algo que eu possa fazer por você?” esses são os efeitos colaterais mais comuns. 

É crucial olharmos os dois aspectos vinculados à bodicita, ou seja, compaixão e sabedoria. Dúvidas podem surgir, normal. De modo geral,  tentaremos “encaixar” as situações comuns e nossos achismos ao Darma. Há uma separação aparente, é sempre: “o budismo e…”. Como se o hábito de reificar as coisas como sendo externas agora se instalasse novamente, tipo um vírus de computador. 

É simples: ao invés de termos interesse em as coisas pelo avesso, com um desejo genuíno de ultrapassar os véus da confusão, clarificar as amarras de desejo/apego, estamos desatentos e sonolentos quanto a nossa verdadeira natureza dos pensamentos e emoções. 

O voto de bodisatva tem a compaixão como base

A inteligência de compaixão, por outro lado, vê as coisas de maneira ampla e aberta. Não tem nada de se fazer de trouxa, nem de procurar alguma mímica de si mesmo – ser bonzinho – esperar por alguma esmola de aprovação. O bodisatva é  ativo, preciso. São as situações que pedem por um ato, elaborações sofisticadas são desnecessárias. Qualquer movimento em corpo, fala e mente, a partir de bodicita, lembra um ato cirúrgico para ser mais exato. Qualquer brecha, qualquer tipo de maquiagem e autocentramento serão deixados de lado. É tão precioso nos darmos conta disso, está na palma das nossas mãos.

O maior tipo de agressão que fazemos conosco durante a vida é passar trinta, quarenta, cinquenta anos ou uma vida inteira sem saber o que realmente somos e qual a natureza daquilo que nos guia o tempo todo: a compaixão. Sem isso, ficamos igual a um hamster engaiolado: cair, levantar e rodopiar, estamos caminhando para longe demais e rumo a lugar nenhum, a impermanência nos derruba e os venenos mentais permanecem intactos. Isso é o ciclo de samsara. Precisamos ser honestos conosco. Sem mais tempo a perder, o voto de bodisatva é o que estamos aqui para internalizar, uma possibilidade de ação no mundo. 

Nas palavras do vidyadhara Chogyam Trungpa Rinpoche:

O voto do bodhisattva é um salto em que começamos a deixar de lado nossa abordagem egocêntrica do desenvolvimento espiritual. No sentido absoluto, o voto do bodhisattva é o transplante completo da bodhichitta, a mente desperta, em nossos corações – uma ligação completa de nós mesmos com a gentileza e compaixão de nosso despertar inerente.Mas não nos tornamos bodhisattvas completos de uma só vez; simplesmente nos apresentamos como candidatos à condição de bodhisattva. 

Por causa disso, falamos de bodichita relativa e absoluta. A bodichita relativa é como ter a intenção de fazer uma viagem e comprar uma passagem; bodhichitta absoluta é como realmente ser um viajante. Da mesma forma, compramos nosso bilhete primeiro e depois voamos.


Chogyam Trungpa Rinpoche


Ao convidarmos as situações a partir dessa perspectiva, nós percebemos a importância de sermos responsáveis por aquilo que cultivamos internamente. Não se trata mais de seguir pensando “positivo”,  “tudo dará certo”. Essa é uma visão ingênua sobre as coisas. O voto de bodisatva vem da confiança e ação real de algo a ser feito a partir da lucidez, surge essa confiança na inteligência de bodicita. 

Nós nos conectamos, abraçamos o sofrimento do outro sem afundarmos juntos, é claro. Já sabemos precisamente o que acontece ali,  como que o sofrimento é construído, artificial e como ele pode ser superado. Isso não diz respeito a algo fabricado intelectualmente e sim, no calor da experiência. 

A maior revolta de um bodisatva é ver que os seres já estão liberados de qualquer tipo de aflição mental, mas, eles mesmos não se compreendem dessa maneira e se descrevem a partir de bolhas de sabão como se aquilo fosse sua realidade final e estática.  

O caminho do treinamento da mente

Ao longo do caminho de transformação da mente, o coração de um bodisatva se torna irreversível: se aquece, é aberto, vivo oferece. Há um desinteresse sobre qualquer artimanha de uma identidade. Os jogos de samsara são vistos apenas como uma forma de se estabelecer um contato, uma relação compassiva com os seres. E ainda assim, não precisamos de troco para isso. É a mais pura e completa forma de amor, no sentido fazer o que precisa ser feito para a real autonomia de si e do outro: evite promover ações negativas, traga benefícios verdadeiros aos seres, dirija sua própria mente! Esse o cerne dos ensinamentos do Buda.

Aproprie-se da própria mente, crescer no caminho, avançar e realmente descobrirmos quem somos.  Não quem você achamos que somos.

Saiba mais sobre o voto de bodisatva

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Imagem de Ian Lindsay por Pixabay

2 comentários em “O voto de bodisatva: o que é e para que serve?

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