Versiculite na busca espiritual ou como evitar a armadilha da inteligência seletiva

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É comum encontrar pessoas que se prendem a recortes específicos de uma palestra ou livro para sustentar seus preconceitos ou interesses pessoais. Ao ignorar o contexto do ensinamento, terminam acamados por versiculite. Essa “doença mental” está presente em várias áreas da vida, inclusive na busca pelo conhecimento espiritual.

Fanáticos por grifar textos e anotar nas laterais dos livros, tensionamos o aprendizado real ali proposto. Por exemplo, eu fico comovido ao ouvir coisas como: “Roberto, li um livro de 250 páginas em uma semana.” Sim, de fato, leu, mas não digeriu e muito menos internalizou o conteúdo.

O hábito do eu e meu

O hábito do nosso aprendizado é trazido de padrões já ensinados nas escolas e universidades. Ou seja, a nossa base vem de buscar performance, métricas e produtividade. Qual é o resultado disso? Colecionamos linhas destacadas e o consumo mensal de livros até aumenta, mas não nos habituamos a contemplar.

O aprendizado na vida contemplativa exige leitura direcionada, meditação e reflexão. É preciso tempo e paciência para isso. 

Veja se a versiculite se aplica à sua situação neste pequeno teste:  

  • O conteúdo intelectual que você acabou de ler pode ser aplicado onde você está, agora
  • Você usou algum método já testado, de preferência por muitos anos, milênios, que transforme esse conteúdo em uma experiência real, ao seu alcance, mesmo em momentos difíceis? 
  • A leitura te ajudou a ver com mais profundidade os seus desejos e apegos? Ou foi feita apenas para passar o tempo?
  • O texto em questão te ajudou a desenvolver familiaridade com a energia autônoma, que observa, sem reagir às emoções e aos pensamentos? Ou você ficou perdido em mais e mais narrativas distantes da realidade?
  • O conteúdo é verdadeiro? Ou lhe pareceu só mais uma coisa interessante e nova, que você não consegue lembrar depois?
  • Aquilo que foi escrito ou sublinhado no livro é fruto de uma reflexão e contemplação? Ou são apenas pensamentos aleatórios? 

Se a primeira alternativa prevalecer na maioria das perguntas, cuidado, você pode estar com a doença. Acumular conhecimento sem colocar em prática é anestesiar a dor da realidade.

É como colecionar bulas de medicamentos sem entender como recuperar a saúde. Ou também, como tomar de impulso esses remédios, sem saber suas doses corretas e seus efeitos colaterais.

Sintomas de versiculite e a consciência

De onde é que o livro veio até chegar às nossas mãos? Qual seu contexto histórico? A distração mental e a ambição pelo saber, que nada mais são do que pura vaidade, nos faz esquecer que o objetivo de um livro é servir como um colírio para a miopia da nossa  ignorância.

Em resumo,  temos 4 sintomas claros para identificar a versiculite: 

  1. Você se torna um carnívoro de livros, consumindo-os vorazmente sem realmente compreender ou absorver profundamente conhecimento contido ali, seu princípio ativo. 
  2. O que você escreve ou sublinha nos seus livros surge de pensamentos diversos sem um exame de consciência a respeito. O que está sendo grifado ou anotado não reflete a sabedoria ou opinião do autor.
  3. Você está desconectado da linhagem de mestres ou autores e suas referências anteriores à publicação e distribuição do livro.
  4. Você está ausente e se esquece que, além de ler e estudar com atenção, o que realmente importa é aplicar este exercício: “de que lugar da mente brotam essas palavras?”.

Na prática, é importante compreender que os ensinamentos espirituais não são apenas uma teoria sobre as coisas, mas um caminho para vivermos de acordo com a realidade como ela é, sem as fantasias do ego. 

A maior parte dos textos budistas têm sua origem nas 4 Nobres Verdades. Esse é o ensinamento fundamental que precisamos saber e contemplar quando estudamos um texto do Darma.

Tocar o chão, aqui e agora. Versiculite não ajuda na hora das dificuldades

A própria história de Sidarta Gautama, por exemplo, nos inspira a desenvolver confiança no caminho espiritual. Todos os ensinamentos deixados por ele (naquele momento, oralmente), ou seja, a herança de sabedoria do Darma, surgiram da sua prática e empenho à meditação, não de livros, que nem existiam.

A versiculite nos engana e nos conduz a uma postura de superioridade. Buscamos notoriedade através de um conhecimento que supostamente possuímos. 

Afirmar que entendemos um trecho e colecionar citações apenas para confirmar nosso viés é uma forma ingênua de estudar e praticar o Darma, uma vez que a vaidade inflamada enferruja o coração.

Precisamos renunciar à ideia de que somos mais espertos ou conhecedores do que os outros por sermos portadores de versiculite. Os trilhos do caminho rumo à verdade são humildade, compaixão e discernimento.

Conceitos isolados podem levar a equívocos e criar barreiras para a verdadeira compreensão dos ensinamentos. Isso está descrito em detalhes em obras de Chogyam Trungpa, como “Além do materialismo espiritual” eTranscending Madness, bem como de Dzongsar Khyentse, como “Não é para felicidade” e “Poison is medicine”.

A verdade não é uma caricatura da realidade. Para internalizar os ensinamentos, precisamos de uma prática, do treinamento da mente. Sem as práticas de shamata e Vipashyana (Prajnaparamita), seremos apenas bons colecionadores de versos e livros: síndrome de versiculite.

Imagem de Dariusz Sankowski por Pixabay


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Autor
Coordenador
Praticante budista e instrutor de meditação. Desde 2011 dedica seu tempo à descoberta do coração desperto (bodicita), a partir dos ensinamentos de Buda e nas instruções práticas de Lama Padma Samten. Casado, pai de 2 filhos, é coordenador da Roda do Darma e tutor no CEBB.

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