Como praticar a confiança no caminho?

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Como todos os diversos professores e ensinamentos a que estamos expostos hoje em dia, como sabemos a quem ouvir e em que ensinamentos confiar? O Buda respondeu à essa pergunta da autoridade espiritual, em um ensinamento que veio a ser chamado de Quatro confianças.

Estas Quatro confianças podem nos ajudar a desenvolver uma compreensão melhor de como seguir em frente nessa cultura e nos dias de hoje. Ele disse:

Confie no ensinamento, não na pessoa.

Confie no sentido, não nas palavras.

Confie no sentido definitivo, não no sentido provisório.

Confie na sabedoria, não na consciência.

~ Buda Shakiamuni

Devíamos fazer um pôster com essas instruções e pendurar por todo o lado: na nossa sala, no banheiro, nos quartos, no chão e no teto. São realmente importantes. Quando praticamos essas Quatro confianças, podemos ter certeza de que estamos no caminho certo e receberemos o benefício completo dele. 

Primeira confiança: confie no ensinamento 

Quando o Buda diz “confie no ensinamento, não na pessoa”, isso significa que não deveríamos nos deixar enganar pelas aparências. O professor pode ser muito carismático, vir de uma família ilustre, andar de limusine e ter muitos assistentes. Ou, ele pode parecer bem normal e viver em circunstâncias humildes.

Não importa se o professor é asiático ou ocidental, homem ou mulher, jovem ou velho, convencional ou pouco convencional, famoso ou desconhecido, podemos julgar o quão qualificado e confiável esse professor é ao observar a qualidade e a eficácia de suas instruções, o seu grau de discernimento e realização, e suas conexões de linhagem. Isso é importante, porque há muitos professores de valor cuja aparência e estilo de vida não correspondem às expectativas dos alunos. Assim, deveríamos confiar mais no ensinamento do que naquilo que pensamos ou sentimos sobre a pessoa que nos concede.

Segunda confiança: confie no sentido 

Aqui a mensagem do Buda, “confie no sentido, não nas palavras”, é de que devemos buscar orientação no sentido do que está sendo dito e não apenas em nossa compreensão conceitual das palavras. O sentido é carregado pelas palavras, mas não está nas palavras. Se nos prendemos no nível das palavras, podemos achar que a nossa compreensão intelectual é definitiva, uma experiência verdadeira de realização. Mas deveríamos entender que as palavras são como o dedo que aponta para lua. Se olhamos apenas para o dedo, ficamos no nível dos conceitos.

Só compreenderemos totalmente o sentido das palavras quando pararmos de olhar para o dedo e nos voltarmos na direção da lua. Fazemos isso ao refletir profundamente sobre o que ouvimos, até que as nossas reflexões nos levem além das palavras, para uma experiência mais direta e pessoal de seu sentido. Você só saberá o que é o chá Earl Grey bebendo da xícara. Você só conhecerá a vacuidade ao descobrir a experiência em você mesmo.  

Terceira confiança: confie no sentido definitivo 

Com “confie no sentido definitivo, não no sentido provisório”, Buda está apontando que precisamos conhecer não só o sentido das palavras, mas também quando um sentido é “definitivo” e quando ele é “provisório”. Esse é outro jeito de dizer que alguns sentidos são ultimos e outros são relativos. Um sentido último é final e completo – é assim que ele realmente é, e não há nada mais a dizer sobre o assunto. Um sentido relativo pode ser uma compreensão importante ou poderosa, mas não é final e nem completa: é algo que nos leva adiante.

Aprendemos muitas verdades relativas em nosso caminho para a compreensão da verdade última. Por exemplo, quando Buda ensinou a verdade do sofrimento, isso ajudou a conduzir as pessoas ao caminho que as libertou do sofrimento. Porém, a própria natureza do sofrimento é relativa. Não existe na natureza definitiva da mente. O que existe é ausência de eu, compaixão, alegria, estado desperto, assim por diante. Essa é a natureza última da mente. Na terceira confiança, Buda está dizendo para confiarmos nos sentidos que são definitivos ou últimos. Se assumirmos a crença no sofrimento como uma verdade última, nunca vivenciaremos a alegria de sermos livres do sofrimento. 

Quarta confiança: confie na sabedoria

Aqui Buda está dizendo que, de forma a vivenciar diretamente e compreender o sentido último, definitivo, de que estamos falando, precisamos confiar na sabedoria – a capacidade a mente de conhecer de uma forma não conceitual – e não em nossa consciência dualista. Quando dizemos “consciência”, estamos falando da mente relativa: as aparências das cinco percepções dos sentidos e da mente conceitual, pensadora. Qual é a relação dessas aparências com a sabedoria? Elas são a manifestação e o jogo da própria sabedoria. Por mais nítidas que pareçam, essas aparências não têm existência sólida. Porém, até que reconheçamos isso, pode ser difícil ver a sabedoria inerente em todas as nossas experiências, especialmente em nossos pensamentos e emoções. 

Como praticamos essa confiança?

Então, como praticamos essa confiança? Uma vez que isso seja compreendido intelectualmente, precisamos desenvolver mais confiança nessa compreensão, e torná-la parte de nossa experiência comum. Por exemplo, quando um pensamento surge, nos lembramos de que é apenas um pensamento. Se é um pensamento raivoso, um desejo de prejudicar alguém,, podemos usar esse pensamento para nos conectar com a sabedoria, primeiramente em um nível relativo.

Se misturarmos a nossa raiva com o pensamento de compaixão, isso muda o sinal que estamos enviando de maneira fundamental. Esse movimento nos traz uma sensação de abertura e conexão de coração que pode nos permitir um melhor relacionamento no futuro. Então, até que sejamos capazes de nos conectar com a sabedoria última, é importante lembrarmo-nos de nos conectar com as qualidades da sabedoria relativa – um sentido simples de abertura e compaixão por nós mesmos e pelos outros. Quando fazemos isso, estamos confiando na sabedoria e não na consciência.

Examinando essas Quatro confianças, torna-se claro que, através delas, Buda está nos mostrando como sermos autônomos e discriminadores, e como evitar confundir uma autoridade inferior e uma superior. Todas as confianças apontam para a natureza confiável de nossa inteligência e para nossa capacidade para reconhecer a verdade. Podemos também ver que Buda está dizendo que o guia definitivo para o nosso caminho é a sabedoria, e não um conjunto fixo de formas culturais, rituais ou práticas. 


 Dzogchen Ponlop em Buda Rebelde – na rota da liberdade, p. 168 – 170

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