Meditar é sentar e se acalmar?

acalmar
Tempo estimado de leitura: 4 minutos

A meditação dentro de um processo de transformação interna nos permite chegarmos mais perto daquilo que supostamente está nos incomodando fora. Em uma abordagem introdutória, vamos chamar essas dificuldades e travas como prisões. Com uma postura relaxa, estável, mente aberta, serena, “Nossos olhos estão virados para dentro. E, onde eles estão repousados?” diria  Mooji. Assim começa o caminho.

Se apenas ficarmos sentados, isso já é um grande passo, mas é insuficiente. A meditação tem sim como objetivo inicial a recuperação da calma e da paz. Vamos ilustrar esse processo com a seguinte história: 

Havia um monge na China da Dinastia Tang que estava praticando meditação sentada com muito esforço, dia e a noite. Ele achava que estava praticando mais do que qualquer outra pessoa, e ele estava muito orgulhoso disso.

Ele se sentou como uma pedra dia e noite, mas seu sofrimento não se transformou. 

Um dia um professor perguntou a ele “Por que você está sentado tão tenso?” 

E o monge respondeu: “Para me tornar um Buda!” 

O professor pegou uma telha e começou a polir, e o monge perguntou: “Professor, o que você está fazendo?” 

O mestre respondeu: “Estou fazendo um espelho”. 

O monge perguntou: “Como você pode fazer uma telha em um espelho?” 

E o seu professor respondeu: “Como você pode se tornar um Buda sentado?”


Autor: Thich Nhat Hanh.


Então, uma vez que sentamos e estamos conscientes de estarmos respirando, relaxando as tensões, podemos olhar mais de perto para as prisões, como que se constroem e claro, o caminho de saída. O texto a seguir tem como objetivo ilustrar esse processo de maneira prática e nos convida a tomar esse remédio o quanto antes, sem a necessidade de termos de aceitar cegamente o que está sendo dito. 


A construção da prisão

A existência e a natureza da prisão já estão mais ou menos claras à nossa mente. Ainda que o processo continue se sustentando, ainda que o automatismo continue operando sem ser percebido, aqui e ali vez por outra nos ocorre a experiência da percepção do processo automático de atribuição de sentido. Nossos olhos se arregalam: a realidade se descortina muito mais ampla e fascinante do que estávamos acostumados.


Tentemos agora observar a montagem da prisão.

Sentar e se acalmar

Sentados em postura de meditação, coluna ereta, respiração abdominal, tórax relaxado, olhos abertos, olhando sem focar, mãos sobrepostas, mente atenta, viva, sem buscar nada especial e percebendo o sonho se descortinando aos olhos.
Pensamentos surgem… a casa, o dinheiro, as crianças, o trabalho, o mal-estar com essa ou aquela pessoa, as férias etc. De onde vêm esses pensamentos?…
Retomamos a posição: coluna ereta, respiração abdominal, tórax relaxado, olhos abertos, olhando sem focar, mãos sobrepostas, mente atenta, viva, sem buscar nada especial e percebendo o sonho se descortinando aos olhos…


De onde vem os pensamentos?

De onde vêm esses pensamentos? Duas fechaduras na porta da frente da casa são suficientes? Hmm, o apartamento do vizinho foi arrombado, tive medo, criei ansiedade e essa ansiedade invadiu minha meditação com o pensamento das fechaduras.

Retomamos a posição… coluna ereta, respiração abdominal, tórax relaxado, olhos abertos, olhando sem focar, mãos sobrepostas, mente atenta, viva, sem buscar nada especial e percebendo o sonho se descortinando aos olhos…

O mal-estar com essa ou aquela pessoa, as férias etc… de onde vêm esses pensamentos? Hmm, não adianta querer relaxar, tenho que resolver essas situações, pô! Uma onda de calor invade o corpo, surge um sentido de urgência. Não fossem os companheiros silenciosos ao lado, você teria levantado e saído.

Os pensamentos vêm e vão: para onde?

Paulatinamente, praticando com paciência, vai-se percebendo que os pensamentos que surgem, que invadem, que trazem ondas de urgência, que provocam fluxos de energia por dentro do corpo, sonhos fantasmagóricos, todos são gerados em experiências anteriores. Nada mais são do que a continuação de processos iniciados horas, dias, anos, vidas antes. Percebemos que o pensamento de hostilidade criado ontem resultou no surgimento de pensamentos de angústia.

Percebemos que certas tendências vêm de decisões tomadas anos e anos antes. Vemos, surpresos, que certas aptidões e preferências não podem ser atribuídas a experiências ocorridas nesta vida. Viriam de vidas anteriores?

As emoções se refletem na respiração e o corpo

Esses processos mentais têm uma contrapartida no corpo. A cada pensamento ou emoção, o corpo se contorce, se tensiona e fluxos internos ocorrem. O corpo acompanha a mente e a mente acompanha o corpo.


Dia após dia, o mesmo local de trabalho, as mesmas tensões, os mesmos ritos físicos, os mesmos padrões de energia no corpo. Em algum tempo surge a doença, a reação à sustentação do mesmo tipo de desequilíbrio, dia-após-dia.


Retomamos a posição: coluna ereta, respiração abdominal, tórax relaxado, olhos abertos, olhando sem focar, mãos sobrepostas, mente atenta, viva, sem buscar nada especial e percebendo o sonho se descortinando aos olhos.


As experiências de uma certa densidade no cotidiano tornam a manifestar-se posteriormente dentro do espaço da meditação. Percebe-se então como podem até mesmo resultar em doenças. A dificuldade na meditação começa antes mesmo de sentarmos na almofada: está na nossa ansiedade e tensão no cotidiano, refletindo-se em imagens e pensamentos que ocorrem desordenadamente no fluxo mental incessante que é a essência de nossa prisão e que conduz nossa imaginação.


Essas tensões e ansiedades do cotidiano criam as marcas mentais profundas que direcionam todo o processo, marcas que produzem a ação, marcas que são o próprio carma individual.


Fonte A Joia dos Desejos, por Lama Padma Samten, p. 21 e 22.

Saiba mais

Continue lendo e aprofundando sobre o tema da meditação com o livro “A joia dos desejos”, de Lama Padma Samten.

Capa de cocoparisienne por Pixabay

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