Metabavana pacificando o coração nas relações

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Metabavana significa meditação do amor universal. Se a nossa mente esvoaçar de um lado para o outro, como será possível se posicionar com lucidez diante das circunstâncias? Essa dificuldade se dá por estarmos operando segundo referenciais sutis da Roda da Vida (em sânscrito; samsara). Como um ferramenta para superarmos esses obstáculos, sugerimos um suporte à prática de meditação, curar as relações.

Qual a importância dessa etapa? Para avançarmos, nós precisamos pacificar nossas relações em todas as direções. Estamos sentados em silêncio, e shamata, e começamos a acolher o que surge, isso é um processo muito sofisticado. Não pertence a categoria de gostar/não gostar (7º elo da roda da vida).

Acolher” significa estar consciente que nossas frustrações são experiências de um mundo interno e elas podem ser transformadas.

Metabavana e as dificuldades nas relações

Segundo os ensinamentos, nossas dificuldades nas relações não são sólidas e sim, artificiais. Começaremos a nos relacionar de uma maneira mais receptiva e menos danosa conosco e com os outros. Reconheceremos a liberdade de andar nos mesmos lugares só que agora com uma mente mais amigável e gentil.

É um olhar vivo que naturalmente se tornará presente na vida. Aos poucos, ultrapassamos as prisões da dicotomia: acatar/rejeitar; gostar/ não gostar; ganhar/perder; vítimar/culpar. Apontar dedos é sofrimento, na certa. Melhor, aprender a trabalhar com a própria mente.

Lama Padma Samten e a metabavana

O poder de shamata nas relações

Recomendo introduzir a meditação shamata antes de metabavana. Quando estamos com a mente mais calma, praticamos e focamos mais facilmente. Se estamos, por exemplo, praticando meditação mas estamos intrigados ou brigando com as pessoas, isso perturbará a nossa prática e não conseguiremos avançar no caminho: uma mente posicionada de forma caótica nos trará dificuldades.

De modo geral, estamos desfamiliarizados com nossa própria mente e, nas relações, cometemos ações não-virtuosas a nível de: corpo, fala (energia) e mente. Existe também a paisagem como referencial condicionado. Pacificando esse movimento dinâmico e sutil, a nossa vida se acalma, a respiração se acalma. Tudo em nossa volta melhora.

Pacificação e cura nas relações

A metabavana é uma prática muito próxima de nós. Por exemplo, olharemos para uma pessoa que está nos perturbando e aspiramos que ela seja feliz, que se libere do sofrimento. Então, fazemos isso e milagrosamente a pessoa muda na nossa frente. Agora, somos capazes de olhar para aquela pessoa, não nos perturbamos e podemos nos posicionar de outra forma diante dessa experiência de relação. Percebemos a inteligência da mente búdica, ampla, não-condicionada, que já portamos.

Agimos com compaixão, amor, alegria e equanimidade. Essa é a nossa verdadeira felicidade.

Podemos praticar metabavana para nós mesmos também. Quando refazemos nossas relações conosco e com os outros, isso deixa a nossa vida mais leve? Quando seguimos assim, já estamos exercendo a liberdade natural da mente, esse é o “poder” que vem da meditação shamata.

Como praticar com metabavana?

Faremos uma lista em um papel, caderno, editor de texto, segue um modelo para ajudar (ver anexo) e enumerarmos situações, aflições, emoções, pessoas, e demais experiências nas relações.

É simples, nós temos três contextos gerais nas relações:

  1. Gostamos: São seres que temos afinidades, relações fáceis, “de boas”, amizades, pessoas próximas, queridas, etc.
  2. Neutras: São pessoas que encontramos no dia-a-dia mas que não temos nenhum vínculo propriamente. Exemplo: porteiros, padeiro, flanelinhas, caixa de supermercado, motorista de ônibus, cobrador, carteiro, recepcionista, frentista de posto de gasolina, motoqueiros, motoboy, delivery, faxineiras, etc.
  3. Não gostamos: existe alguma aversão, alguma desavença? Temos alguma relação difícil com alguém? Algum “nó” na relação? algum conflito?

Metabavana com exemplos e situações

  • Familiares: Mãe, madrasta, pai, padrasto, irmã(o)s, filho(a)s, meio-irmã(o)s, avós, netos, tio(a)s, sobrinho(a)s, primo(a)s, bisavós, bisnetos, etc.
  • Relações a dois: Casamento, noivado, união estável, namoro, ficante, amante, paquera, crush, colegas, amigo(a)s, divórcios,  tod@s os ex-alguma coisa – inclusive os bloqueados no Whatsapp e facebook… ex-amigos de colégio, da faculdade, do jardim da infância, vizinhos, etc.
  • Carreira profissional: Olhar gestores, chefes, empregados, colaboradores, equipe de trabalho, colegas atuais e os que se foram. Olhar as identidades que portamos no currículo e as pessoas que tivemos algum contato nesse período. Em um mesmo lugar de trabalho, a pessoa pode “rodopiar” pelos seis reinos e achar que o trabalho é externo ele é a causa do  amargor, insatisfação, etc. Revemos a motivação sobre o bom coração.
  • Purificação pessoal: Praticar com as seis emoções perturbadoras (orgulho; inveja; desejo/apego; torpor/preguiça; carência; ódio/medo) que reconhecemos como flutuações automáticas ;

  • Vizinhos;
  • Pessoas: que encontramos na rua, que encontramos nos sonhos/pesadelos, que já morreram ou pessoas que encontramos no trânsito

  • A lista segue…

Metabavana na prática

Começamos a prática para uma pessoa querida – dos três contextos, temos aqui o primeiro. Vamos chamá-la de “Fulana”. Sentamos em postura de prática, mentalizamos essa pessoa e recitamos:  “Que Fulana seja feliz… Que Fulana se libere do sofrimento…” como estabelecemos algum vínculo com essa pessoa, também nos incluímos: “Que eu seja feliz, que eu me liberte do sofrimento…” 

Então, seguimos para a próxima linha da lista até terminarmos a experiência de “gostar.” A medida que nos familiarizamos, seguimos para os itens de indiferença e não gostar. Podemos também incluir na lista situações difíceis que estamos enfrentando, situações futuras que nos causam ansiedade ou “aquelas” situações que nos atormentam há um bom tempo…

Compaixão

Com o tempo, observaremos que há uma diferença entre simplesmente internalizar os versos de metabavana e lê-los.

Na prática, nosso corpo, nossa fala, nossos sentimentos, nossas percepções a respeito do que se passa/ou, os pensamentos e a mente se tornam menos densos, há uma leveza natural antes despercebida. Consequentemente, a relação conosco e com os outros se torna mais leve. O ponto é reconhecer que não somos essas experiências internas negativas, e em vez de rejeitá-las, compreendermos esse processo. 

Esse acolhimento contínuo nos retorna ao cuidado com as nossas ações e principalmente, a um olhar compassivo conosco e com os outros. Percebemos que a prisão é um movimento interno dinâmico e que há a possibilidade de agir de outra forma. É muito importante fazer a prática para si mesmo também, pois vamos transformar não só nossa visão sobre os outros como sobre nós mesmos.

Metabavana um salto para a compaixão

  1. Que
    (nome da pessoa) seja feliz;
  2. Que
    (nome da pessoa) se liberte do sofrimento;
  3. Que
    (nome da pessoa) encontre as causas verdadeiras da felicidade;
  4. Que
    (nome da pessoa) supere as verdadeiras causas do sofrimento;
  5. Que
    (nome da pessoa) se libere totalmente de suas fixações cármicas;
  6. Que
    (nome da pessoa) manifeste lucidez de modo natural e instantâneo;
  7. Que
    (nome da pessoa) seja verdadeiramente capaz de ajudar os outros
    seres;
  8. Que
    (nome da pessoa) encontre nisso a sua fonte de alegria e energia.

Anexo
– Tabela das relações 

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Indiferença

**Imagem de TanteTati por Pixabay

É aluno de Lama Padma Samten. Desde 2011, tem sua atenção e curiosidade roubadas pela meditação e a sabedoria milenar do Darma de Buda. É tutor do Programa de Formação de Facilitadores do CEBB, sob orientação de seu mestre.

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