A importância da atenção plena lúcida na meditação

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Você já ouviu falar em atenção plena ou mindfulness?

No senso comum, a meditação ficou popularizada com o termo mindfulness e é oferecida dentro da abordagem da atenção plena à respiração.

Embora seus benefícios tenham sido comprovados pela ciência e divulgados nas redes, existem alguns equívocos pouco comentados a respeito dessa prática e do seu potencial de alcance. 

A meditação da atenção plena ficou popularizada como uma ferramenta para aliviar a ansiedade e conduzir o praticante a um bem-estar no dia a dia. 

Exercitar a atenção plena nas ações diárias reduz a nossa inquietação diante dos problemas e, assim, somos contemplados com uma vida plena. Em geral, a técnica da atenção plena possui um alcance maior do que o proposto somente como mindfulness.

Entender com mais clareza sobre atenção plena e a abordagem mindfulness nos permite poupar tempo e evitar obstáculos.

Neste artigo, temos uma contribuição da visão budista a respeito do mindfulness e da atenção plena lúcida a partir da abordagem Sati. O texto é composto da transcrição de encontros do professor budista Lama Padma Samten em sua contribuição sobre o tema.

Mindfulness é uma prática de origem budista?

“Mindfulness”, provavelmente, é uma palavra registrada. Isso é uma tradição que surge com o seu próprio formato, com o seu próprio processo de certificação. Ela não tem nenhuma vinculação com a tradição budista e nem nada formal. 

A princípio, ela tentaria ser autônoma, ou seja, se despir do conhecimento de qualquer tradição religiosa. Ela tem essa tendência e, desse modo, consegue penetrar mais facilmente nos âmbitos não religiosos. Ela consegue penetrar na universidade e no mundo dos terapeutas, de algum modo. Isso é naturalmente meritório. 

No entanto, a natureza búdica [também] não precisa de nenhuma tradição religiosa para operar. 

A imensa maioria dos seres não tem nenhum contato religioso e estão perdidos dentro do samsara. Na verdade, o samsara é um mundo mágico, luminoso, onde a natureza búdica permeia tudo, seja reconhecida ou não. 

A natureza búdica permeia o mindfulness. Para o bem ou para o mal, com autorização ou não, ela está lá dentro. 

Como são as práticas de mindfulness? Como funcionam? E como elas se relacionam com o próprio budismo? – isso é algo que eu não sei. Eu não estudei mindfulness porque isso é uma [outra] tradição, é uma forma específica de se introduzir a meditação. 

O caminho da atenção plena lúcida

Porém, se isso for proposto como [atenção plena] e for Sati, se isso está ligado, de algum modo, ao budismo original, ao Buda; se está relacionado ao Pali, então deveria dialogar com Satipatthana, Anapanasati e Mahasatipatthana. Eu vejo que essa convergência deveria acontecer. 

Tenho a impressão de que a própria tradição mindfulness não aspira a nenhum paralelo. Eu acredito que as pessoas que desenvolvem essa habilidade têm um interesse, elas se conectam. Eu acho isso muito meritório e adequado. 

Com o tempo, a própria tradição de mindfulness irá se aproximar mais e mais do próprio budismo porque o budismo é uma fonte muito ampla: ele pode enriquecer as várias visões [existentes]. 

O que acontece na meditação com a atenção plena lúcida?

Quem medita por Sati, pelo Satipatthana Sutra, se aproximará do primeiro jana.

Depois de contemplar todos os aspectos internos e externos, o praticante ganha um afastamento, um distanciamento. O Buda usa palavras que são traduzidas em língua portuguesa como afastamento

A partir desse afastamento, toda a experiência mental e física, todo tipo de experiência, qualquer coisa que pudermos determinar, o veremos distanciados, a partir de uma dimensão lúcida: isso é Sati.

A felicidade natural na meditação 

Essa contemplação, Sati, surge a partir da respiração longa e da respiração curta, a partir do corpo, da fala, da mente e das sensações. Então, em todas as experiências, nós começamos a ganhar um distanciamento. Nós ganhamos, em certo momento, essa capacidade de reconhecer a dimensão da mente livre e lúcida. 

Isso irá nos conduzir a uma felicidade natural, mesmo em meio a todas as circunstâncias. Isso traduz o que seria o primeiro jana. Esse ponto nos permite entender a liberação. 


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Como e por onde praticar a atenção plena lúcida?

Nós vamos praticar a lucidez com respeito às aparências que poderíamos chamar de aparências externas e aparências internas, no sentido do próprio corpo. Como o próprio Buda descreve no Surangama Sutra, quando nós contemplamos o corpo, isso não é apenas interno, é também externo. 

O aspecto interno da meditação

O aspecto interno é quando a mente olha a si mesma.

Quando nós estamos em uma percepção comum do mundo, nós podemos pensar: “eu estou aqui, e do meu corpo para fora, eu tenho tudo que é externo, do meu corpo para dentro, eu tenho o que é interno.” 

O Buda diz que quando nós olhamos ao redor, nós temos aquilo que parece o mundo externo. Mas, quando nós viramos esse foco e olhamos para dentro, tem alguém atrás dessa visão que está sendo olhada, esse é o aspecto interno. 

O corpo, então, vira um aspecto externo, ou seja: eu tenho um observador e ele está olhando para alguma coisa. O corpo não é interno, ele faz parte do ambiente de onde nós contemplamos. Então, usaremos essa perspectiva. 

Vamos guardar a noção do interno para quando a mente reconhece a própria operação dela. 

Quando nós estamos a investigar os aspectos ligados a samasamadi, ainda não estamos olhando verdadeiramente a mente, nós estamos olhando os sinais que brotam quando voltamos a operar a mente, os sinais que nós operamos para ativar o funcionamento da mente. 

Dificuldades na abordagem da atenção plena lúcida

Ainda assim, como o próprio Buda descreve no Surangama Sutra, ele convida Ananda (seu aluno) a receber o ensinamento, não com a mente que pensa, mas com a mente que intui. 

Ou seja: entender a experiência além das palavras, além das ligações lógicas, tentar isso por um meio intuitivo e natural, por uma sabedoria que não é uma sabedoria que vem por um aspecto causal e lógico. 

A grande dificuldade do Ananda é que ele sempre está resolvendo de modo causal. Quando ele entende o que o Buda está dizendo, não internaliza. 

Ele lembra o que o Buda já explicou em outras oportunidades e então diz: “seria isso? Assim como o Buda havia explicado antes?” Então, o Buda concorda. Mas não é o que Ananda vê, ele lembra o que o Buda falou. Essa não é a mente que nós vamos utilizar. 

Atenção plena e a Prajnaparamita 

Na nossa linguagem, a mente espontânea, intuitiva e natural seria a própria Prajnaparamita. Quando nós olhamos os versos da Prajnaparamita, nos lembramos dessa sabedoria. Então, o Buda induz isso para que o Ananda possa acessá-la a partir dessa sabedoria. Mas Ananda tem dificuldades. 

Para nós, precisaríamos entender que esse aspecto de Prajnaparamita que o Buda está evocando brota da mente primordial, sem condicionantes. Quando ele diz que é de modo espontâneo e natural, é esse aspecto que não tem uma elaboração artificial que sirva de base para o raciocínio. 

Essa elaboração artificial que serve de base para o pensamento é justamente a bolha de realidade

Na linguagem que Dudjom Lingpa e Dudjom Rinpoche usam, eles nomearão isso de mente fundamental, de alayavijanana: a mente que dá origem às múltiplas impressões. 

A sabedoria da origem dependente e atenção plena lúcida

Quando nós olhamos os 12 elos da originação dependente, nós vamos encontrar, primeiro, avidya (1° elo da origem dependente). Na sequência, vamos encontrar as marcas mentais (samskaras). O conjunto das marcas mentais serve como referencial para os pensamentos surgirem. 

Na medida em que nós trocamos de regiões internas, de marcas mentais, temos diferentes visões das coisas. É só trocar a base que a própria visão das coisas muda. 

O aspecto livre e secreto nos permite trocar de um referencial interno para outro, enquanto o aspecto sutil é o conjunto de referenciais que tomamos e que dão sentido às aparências vistas no aspecto grosseiro. 

Visão, meditação e ação

Nesse conjunto de ensinamentos, nós veremos os aspectos grosseiros na forma do próprio corpo que estamos contemplando. Nós perceberemos que o corpo muda de acordo com a base  (interna) de que nós contemplamos para mudar o próprio corpo. Nesse sentido, nós ultrapassamos a aparência comum como se fosse algo íntimo e nosso. Estamos indo adiante. 

Nós vamos fazer essa prática entre Diana, em que nós sentamos em silêncio, e Sati, samasati, onde a sabedoria começa a surgir pelo olhar. 

Essa transição dialoga com os ensinamentos de Dudjom Rinpoche que tratam dos ensinamentos da Iluminação da sabedoria primordial. Esses ensinamentos são, por sua vez, a clarificação, a apresentação compassiva dos ensinamentos de Garab Dorje, resumidos por Visão, Meditação e Ação ou Visão, Meditação, Ação e Fruição. 

Dentro do do Nobre Caminho de Oito Passos, o trajeto que irá do sexto ao oitavo passo é essencialmente visão, meditação, ação e fruição. 

Quando nós falamos de Visão, é muito importante localizarmos que a Visão não é algo que depende apenas do foco da mente ou do que nós produzimos no foco da mente, mas sim do que nós utilizamos para servir de base para o foco da mente. 

Assim, em tudo o que a nossa mente opera, existe sempre a base e o foco

O foco e a base são não duais. A manifestação da base define o que vai ocorrer dentro do foco e o que o foco produz é completamente inseparável da própria definição da base que foi trabalhada

Liberdade frente às prisões internas e externas

A liberdade de reconhecer a base já é Prajna. 

A liberdade de definir qual a base é o exercício do aspecto secreto, que é a liberdade natural incessantemente presente. 

Quando somos seres do samsara, nós não entendemos a base primordial, não entendemos a base condicionada; simplesmente olhamos para as aparências e seguimos as disposições físicas e mentais de modo não dual com as próprias aparências.  

A operação da nossa mente, da nossa energia, a operação da nossa compreensão, quando estamos imersos no samsara, fica diretamente ligada às disposições, às manifestações, aos fenômenos de corpo e de mente. 

Dentro do samsara a nossa manifestação é a originação dependente, ou seja, na dependência de uma disposição de corpo, de um fenômeno de corpo, de um fenômeno de energia, de uma manifestação de mente, nós, de modo muito natural e espontâneo, tomamos esses elementos, esses surgimentos, como nossos referenciais. 

Em seguida, vamos adiante na construção luminosa de outras realidades, isso é o transitar infinito por dentro dos mundos ilusórios do samsara. 

Nesse processo, nós não temos a menor chance de ultrapassar o samsara. 

Transmigração

Nós surgimos como seres em constante transformação, vagueando por aparências sempre mutáveis, sem nenhum tipo de solução. Vamos aspirar ardentemente ao movimento de outras configurações e elas são apenas a base que servirá de apoio para outras aspirações ardentes em outras direções. 

Assim, nós vagueamos sem a menor possibilidade. 

Quando olhamos com cuidado, quando o Buda nos convida a olhar isso, entendemos que estamos seguindo o samsara pelas experiências de corpo, pelas disposições de corpo e de energia, pelos fenômenos de corpo, pelas manifestações de mente, pelas disposições mentais, pela manifestação da energia a partir da mente. 

Nós vemos esse funcionamento e na medida em que percebemos isso, nós entendemos que configurações de um tipo produzem outras experiências de corpo e de mente, que servem de base para produzirem outras, e nós vamos surgindo como identidades que operam dentro de mundos específicos. Vagueamos, sem nenhuma chance. 

Esse é o contexto de onde surge o Satipatthana Sutra. O Buda, entendendo isso, nos convida a desenraizar essa operação (condicionada). 

Para que praticar a atenção plena lúcida com o Satipatthana Sutra?

Temos uma razão bem clara para praticarmos o Satipatthana Sutra.  

Sati é atenção correta, é olhar corretamente. É como se fosse Prajna. Patana é o caminho. Então, Satipatthana é o caminho da atenção. Quando nós estamos olhando na perspectiva do texto da Iluminação da Sabedoria Primordial, desenvolvemos Visão, aprendemos como olhar

O Buda nos convida a olhar o corpo, as disposições de corpo, as sensações, a mente e as disposições de mente. Esse aspecto é muito profundo pois nós temos uma conexão direta com isso. 

Por exemplo, se temos uma dor no corpo, nem pensamos se isso é vacuidade ou não, nós gritamos. Nós queremos nos livrar direto, isso não pertence ao universo do Darma. Uma dor é completamente sólida. Se nos falta respiração, a respiração é completamente sólida. 

Tudo que diz respeito ao nosso corpo é uma brincadeira na que não queremos entrar. 

Tudo que pertence ao nosso corpo, é sólido, é concreto, é real. O nosso Darma penetra nisso? Nós podemos ter uma lucidez com relação a todos esses fenômenos, ou não? Esses fenômenos estão tão enraizados em nós… 

Por exemplo: nós estamos nos comunicando aqui pelos pixels, por uma tela, por uma vibração sonora. Nós temos a sensação de estarmos diante de pessoas. 

Satipatthana é importante pois precisamos desenraizar as estruturas do samsara 

É como por exemplo, o Sutra do diamante: ele desarma a própria linguagem do bodisatva. Eu acho isso super maravilhoso! Nós nos sentimos “o bodisatva” trazendo benefícios, fazendo votos disso e daquilo. No Sutra do Diamante, o Buda mantém o poder das palavras, mas retira a aparência que aquilo tem. 

Eu falo dos bodisatvas, falo dos grãos de areia do rio Ganges, falo dos seres a serem iluminados e dos obstáculos e todas as coisas. Quando eu digo isso, pode ser que as pessoas pensem que isso existe mesmo. Mas não há isso também. Então, eu acho maravilhoso, pois lidamos com a aparência e a vacuidade da aparência. 

Nós estamos falando de coisas externas, mas e aquilo que aparece internamente em nós, como é isso?

Por exemplo, nos comunicarmos é um automatismo total. Nós utilizamos o samsara para nos comunicar, não pensamos sobre, não conseguimos ver isso. Mas precisamos examinar esses aspectos. Os aspectos de corpo, de mente, das disposições de mente, todos eles são importantes. 

[No Satipatthana Sutra], o Buda traça um número grande de elementos para que consigamos reconhecer isso. 

O nosso objetivo é conhecer a existência e, ao mesmo tempo, estar livre de considerar esses aspectos todos como sólidos. É por isso que trabalhamos com o Satipatthana Sutra. 

O Satipatthana Sutra é super importante para desenraizar a listagem toda que o Buda apresenta neste Sutra. Sem isso, seguimos com os automatismos correspondentes ao samsara.

Satipatthana Sutra e os fundamentos da atenção plena 

Para saber mais e seguir com a meditação da atenção plena lúcida, descrita no Satipatthana Sutra, basta acessar a linha temática da Ação Paramita.

Referências

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Autor
Coordenador
Praticante budista e instrutor de meditação. Desde 2011 dedica seu tempo à descoberta do coração desperto (bodicita), a partir dos ensinamentos de Buda e nas instruções práticas de Lama Padma Samten. Casado, pai de 2 filhos, é coordenador da Roda do Darma e tutor no CEBB.

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