As quatro formas usuais de tensionar sua vida

Quartro-formas-de-tensionar-sua-vida
Tempo estimado de leitura: 3 minutos

As quatro formas usuais de tensionar sua vida são: (1) resolver, (2) disciplinar/controlar, (3) Manipular e (4) Intuir. Vamos olhar um pouco para isso?

No caminho rumo à lucidez, o ponto principal é a Grande compaixão. Nós podemos ter a compaixão e a Grande compaixão. Na primeira, desejamos aliviar a inquietação mental dos seres – a curto, médio e longo prazo – e também desejamos que eles se livrem de suas causa principal – a ignorância (avidya). Já a Grande compaixão abarca tudo isso e o “plus” de que temos a sabedoria de ver a natureza da realidade como ela é, temos sabedoria Prajna, vemos a fugacidade do sofrimento e temos vidya, lucidez. 

Nem aqui, nem lá.

Prajna interroga a mente comum e consegue desvendar as quatro formas usuais de tencionamos as situações. Ela vê a mente por trás da mente, mostra os bastidores da vida, ou o que chamamos de vida. 

Bom, então, como colocar isso em prática?

Existe uma ação da mente anterior a própria mente conceitual, essa mesma, essa tagarela mimada que fica dizendo coisas na sua cabeça. A questão é: estamos desacostumados a olhar para essa ação da mente que libera a si mesma. Então, começamos com uma “prevenção”. Uma das premissas fundamentais do Darma de Buda é evitar produzir sofrimento, incluindo para nós mesmos. 

Certo. Mas e aí? Como faz? 

Ao invés de seguirmos nos agredindo por exagero ou negação das situações, melhor aprendermos a relaxar e estarmos conscientes da mente que vê a mente. Daí, em seguida, fazemos o que for mais apropriado. 

Hein? Como assim, Roberto?

Se olharmos com mais cautela, podemos ter barcos diferentes, mas estamos na mesma tempestade – todos aspiram à felicidade e desejam evitar o sofrimento. Porém, ao fazer isso, nós catalizamos ainda mais as causas do sofrimento. Então, começaremos evitando nos agredir e aos outros também, capiche? Basta olharmos antes, durante e depois das histórias e dramas das identidades que contamos.  

Antes do pensar e do não-pensar

Olhe devagar, procure ouvir o silêncio antes das palavras, do pensamento, do som. É isso que estamos querendo dizer com resolver, controlar, manipular e intuir. Pare, olhe devagar. Essas ações não resolvem, de fato, nós estamos apenas transmigrando com isso. Transmigrar significa sair por aí apontando dedos e aspirando a bolha prometida, já deu, né? 

A compreensão da ação da mente condicionada nos ajuda a encontrarmos espaço, abertura, uma liberdade natural da aparente solidez frente às situações da vida que  dizemos isso é sofrimento, insatisfação, angústia. 

Se eu tento resolver, nós tensionamos:

  • Queremos resolver logo, do nosso jeito;
  • Minha ansiedade é totalmente justificável e pede uma “ação imediata” 
  • Sentimos uma espécie de afogamento;
  • Achamos justificável usar nosso corpo, energia e mente a partir da negatividade e dos padrões de aprisionamentos – orgulho, inveja, desejo/apego, preguiça, carência e raiva/medo;
  • Julgamos, culpamos, condenamos a si e aos outros;
  • Mantemos conexões positivas;
  • “Seguimos a boiada…”
  • O mundo parece um campo minado e nós no meio.

Se eu tento controlar, nós tensionamos:

  • Como posso melhorar a minha vida?
  • Encontro estruturas, modelos, regras;
  • Posso  gerir as coisas?
  • Posso ver como as coisas dão certo e me apegar a isso?
  • Vejo as minhas metas e os resultados como parâmetro;
  • Uso da disciplina para resolver tudo;
  • Temos vários projetos de vida, ainda assim, temos aflições internas.

Se eu tento manipular, nós tensionamos:

  • Vemos o que brota internamente diante das situações e vejo vantagem nisso;
  • Desenvolvemos um senso de exame e introspecção;
  • As emoções perturbadoras (orgulho, inveja, desejo/apego, torpor, carência, ódio/medo) regem nossa vida e são como experiências cíclicas;
  • Vemos que as coisas dependem de como eu me posiciono internamente;
  • As situações se tornam um laboratório: “eu estou passando por isso, eu não sou isso”;
  • Posso me tornar orgulhoso e ficar teorizando muito sobre as ações dos outros. 

Se eu intuo sobre as coisas, nós tensionamos:

  • Temos uma intuição sobre como as coisas deveriam ser e nem sempre isso é senso comum;
  • Seguimos sinais indicativos: sonhos, por exemplo;
  • Temos uma noção de transcendência;
  • Temos uma inquietação interna: “o mundo funciona assim, mas talvez…”;
  • Buscamos por um caminho espiritual ou assuntos relacionados;
  • Podemos achar que existem dois mundos o mais elevado, espiritual e o das pessoas comuns, medíocres;

Você consegue ver a compaixão presente em cada uma dessas ações mencionadas? Experimente: escreva em um caderno uma situação que aconteceu e veja se consegue perceber sua tentativa de: resolver, controlar, manipular ou intuir.

Seguimos nos comentários! 

Gostou? Curta, compartilhe com amigos e familiares que se beneficiarão.

Autor
Coordenador
Praticante budista e instrutor de meditação. Desde 2011 dedica seu tempo à descoberta do coração desperto (bodicita), a partir dos ensinamentos de Buda e nas instruções práticas de Lama Padma Samten. Casado, pai de 2 filhos, é coordenador da Roda do Darma e tutor no CEBB.

2 comentários em “As quatro formas usuais de tensionar sua vida

  1. Abimael Responder

    Roberto,

    Não entendi o que você falou sobre manipulação, se tenho um senso de exame e introspecção, se percebo que estou passando por isso, mas não sou isso, como posso ser regido pelas emoções perturbadoras? O exame e a introspecção não me dão uma condição de liberdade diante dessas emoções?

    • Roberto Sampaio Autor do postResponder

      Grande Abimael!

      Se tenho um senso de exame e introspecção, se percebo que estou passando por isso, mas não sou isso, como posso ser regido pelas emoções perturbadoras? O exame e a introspecção não me dão uma condição de liberdade diante dessas emoções?

      Em algum nível, sim. Mas a liberdade que estamos apontando é a liberdade da mente. Posso ter um senso de exame e introspecção e ser muito hábil em manipular uma informação e ter um resultado favorável para com isso, me tornar ardiloso. Em um certo sentido, a publicidade e propaganda fazem isso, né? Então, nesse sentido o que irá diferenciar é a motivação por trás do exame e introspecção. Isso seria um pulo ao reino dos Deuses, na nossa linguagem.

      Então, é uma alfinetada de minha parte para não nos fixarmos nessa manipulação sutil. E sim, olhar a motivação em cada ação.

      Faz sentido?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *