Meditar para relaxar? Já somos relaxados.

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A palavra meditar está associada a relaxamento, estabilidade e clareza mental. Estas são qualidades naturais que reconhecemos quando seguimos na prática de meditação. Assim, na medida em que vamos avançando, podem surgir dúvidas sobre esses pontos. Então, seria interessante pararmos e revisarmos esses fatores cuidadosamente. 

Por vezes, quando começamos, podemos imaginar a meditação como mais uma técnica de relaxamento, como um tratamento alternativo para ansiedade, para com as nossas inquietações, para parar a mente ou esvaziá-la… Bom, até aí tudo bem. Mas, isso é como tentar tomar um remédio e não ler a bula por completo, pode até funcionar… Melhor mesmo se soubermos da potencialidade da medicação como um todo. Se pudermos olhar com mais profundidade o que as tradições milenares têm apontado sobre o tema e não ficarmos apenas dentro dos nossos pressupostos usuais a respeito, poderemos avançar mais rápido e enfim, elucidar nossas inquietações.

Tentar relaxar só piora a situação

Aqui, nós vamos destrinchar a experiência de relaxamento. Usualmente, o termo pode ser usado dentro de um vasto contexto. É principalmente associado ao corpo, mas podemos avançar mais e mais e, realmente perceber o que nos tira do relaxamento. Ora, se olharmos com cuidado nós já somos relaxados. Nossa tentativa incessante de relaxar só piora a coisa toda pois, na verdade, estamos tentado criar algo que já somos e temos. Isso é como tentar identificar a água e o óleo que estão dentro de uma garrafa balançando-a ainda mais! O recipiente representa a nossa sensação de controle sobre a coisas. 

Disciplina para meditar

Quanto mais queremos controlar, mais a balançamos a garrafa com rapidez. Se percebermos que há uma estabilidade fora da ação de observar e se fixar ao movimento da água e do óleo na garrafa, a coisa toda se decanta, se resolve. Quanto mais interferirmos no movimento, mais a tensão ganha força, de modo autônomo, assim aparenta ser.  Há também um ponto interessante onde o processo respiratório reflete o aspecto emocional.

Nós vamos perceber que podemos deixar a mente repousada, sem a necessidade de termos um controle remoto para isso, uma neurose correspondente. É muito comum começarmos pelo processo de disciplina, quase como que uma postura militar. Então, o que os contemplativos descobriram é que a estabilidade que tanto almejamos vem pelo relaxamento. Aqui temos dois pontos importantes:

1 – Permitimos que o corpo repouse sem esforço, mas atentos a isso. A posição do corpo é um reflexo de onde a mente está focada, no momento;

2 – Deveríamos nos aceitar e começar a meditar com o que for possível de relaxamento. Por exemplo: inspirar e expirar profundamente.

Mas e aí? Meditar é… 

Seguiremos apresentando algumas definições dentro da experiência de praticantes de longa data e veremos como que isso reverbera em nós. Somos muito teóricos e muitas vezes, isso atrapalha o nosso real avanço. 

A Elizabeth Mattis Namgyel define relaxamento de uma forma bem simples e direta:

Relaxamento significa descansar da sensação de que apenas podemos nos mover a partir da nossa relação com nossas projeções internas.

Usualmente os aspectos da meditação são apresentados em corpo, energia e mente. Eles são assim estão distribuídos de modo que possamos chegar a identificar e trabalhar com a mente. É um pouco incomum já sentarmos e não sermos arrastados pela energia, mente; Como se estivéssemos nos afogando em nós mesmos. Daí, é interessante praticarmos algum tipo de relaxamento a nível de corpo para que então a mente se torne algo ao nosso alcance. Na verdade, mente e corpo são uma coisa só, mas vamos por partes, para facilitar o processo. 

Meditar é relaxar da sensação de se afogar em si mesmo(a)

A prática de shavasana é uma boa recomendação para quem deseja começar a meditar mas se sente muito inquieto ou sendo levado pela ansiedade, problemas externos, ruídos, desconcentrado, etc. Então nós começamos deitados, sentimos o relaxamento naturalmente presente, a estabilidade e capacidade de clareza mental – foco. 

É como se estivéssemos nos sentindo adoentados e estamos indo em direção a um hospital. Quando chegamos, essa etapa do relaxamento seria equivalente a uma enfermaria, sala de repouso; Estamos exaustos, precisamos descansar da sensação de que somos essa tensão constante que nos cerca. 

Então, uma vez que localizamos o relaxamento, as outras duas qualidades estabilidade e vivacidade afloram. Uma analogia “forçada” seria a etapa de soro, acolhimento e descanso de uma gripe forte, ainda estamos no hospital e recuperando a condição de saúde que está sempre presente. 😉 

O tratamento assim começa. Em seguida, nós podemos ir intercalando shavasana com a prática de meditação  – aqui estamos descrevendo “meditação” como sendo sentar, posturar a coluna, mãos relaxadas sobre os joelhos, ombros soltos, cervical levemente para dentro, olhos relaxados – mente serena. Alegria!

O coração da experiência

O Lama Alan Wallace enfatiza esse ponto da seguinte maneira: 

A estabilidade atencional é uma medida da quantidade de determinados impulsos da percepção, que estão focados em nosso objeto desejado. Por exemplo, se tivermos cinquenta momentos de determinada cognição por segundo, e todas as cinquenta forem focadas nas sensações táteis da respiração, isso indica um grau relativamente alto de estabilidade. Uma mente distraída, por outro lado, tem uma grande proporção destes determinados momentos, espalhados em campos diferentes da percepção.

A estabilidade é a coerência em relação ao objeto escolhido. Quando relaxamos e nossa atenção estabiliza, se a vivacidade aumenta, podemos experimentar uma densidade mais elevada dos momentos de determinada consciência em cada segundo. O número de determinados momentos focados em nosso objeto escolhido pode aumentar, por exemplo, de cinquenta para cem. 

Durante o estágio hipnagógico da consciência – que é um profundo estado de relaxamento enquanto caímos no sono, com nossas mentes totalmente ausentes dos sentidos físicos – pode haver um alto grau de vivacidade.

Eu suspeito que a vivacidade excepcional desta fase de transição da consciência e de alguns sonhos pode ser devida, parcialmente, ao fato de que a mente está relaxada e desengajada dos sentidos, com pouca competição de outros estímulos. Mas os sonhos não são normalmente estáveis, e nós temos, normalmente, pouco controle sobre eles. Por esta razão é que a sequência do treinamento shamata começa por relaxamento, a seguir, estabilização da atenção e, finalmente, a sustentação do relaxamento e da estabilidade, aumentando gradativamente a vivacidade

Muitos meditadores enfatizam a vivacidade em suas práticas porque sabem que isso traz um tipo de “êxtase”. Mas os benefícios duradouros da vivacidade têm dois pré-requisitos: relaxamento e estabilidade. Se você quiser desenvolver uma vivacidade excepcional, primeiro desenvolva o relaxamento; depois desenvolva a estabilidade e, finalmente, aumente a vivacidade. Embaixo de todos estes aspectos da atenção deve existir uma fundação de equanimidade, sem a qual as fortes vacilações atencionais e emocionais podem persistir indefinidamente. Um sinal geral de progresso espiritual é a impertubabilidade diante das vicissitudes da vida, e para isso, a equanimidade é a chave.

Fonte: A revolução da atenção: revelando o poder da mente focada, B.Alan Wallace; Ed. 2012.


Uma tentativa frustrada de mudar a si mesmo(a)

Assim, uma vez que entramos em shamata, “meditar” é para podermos ter uma maior clareza e investigar – no sentido de ter discernimento, experimentar e compreender – com precisão como que somos tomados pela confusão e os nossos problemas surgem como sólidos, separados, objetificados, causais e assim sofremos perpetuando esse processo. 

É porque eu…

Para deixar um gosto de “quero mais”, Berzin enfatiza os pontos anteriores sobre a ótica da amplidão da mente:

Quando falamos em relaxamento, normalmente pensamos em relaxar o corpo. Esquecemos da mente. Achamos que relaxar a mente é dormir. Para relaxar a mente, precisamos baixar nossas barreiras de proteção ao ego, o medo de se machucar e o medo do desconhecido. Então a mente naturalmente relaxa. “Às vezes temos receio de sentir um determinado sentimento porque não sabemos o que vai acontecer – parece que vamos perder o controle.” Isso é o grande e sólido “eu” se protegendo atrás de barreiras.


O relaxamento mental vem de algum nível de compreensão sobre a vacuidade. A vacuidade significa uma ausência de modos impossíveis de existência no que diz respeito a nós, aos outros e a tudo o que acontece à nossa volta. Nada e ninguém existe de maneira “sólida”, por si só, independentemente de tudo o mais, alienado do que está acontecendo.

Se conseguirmos relaxar a consciência excessiva do “eu”, a insegurança e a preocupação autocentrada, teremos uma ideia de como é ter algum nível de entendimento da vacuidade. Mesmo sem termos estudado profundamente, podemos ter uma ideia do que ela significa, pois podemos experimentá-la, em um certo nível, quando estamos com o nosso melhor amigo.


Não estaremos tentando nos vender, como quando procuramos emprego. Não estaremos atuando. Estaremos confortáveis com todos, porque estaremos confortáveis com nós mesmos. Tudo depende da nossa compreensão sobre como o “eu” existe. O “eu” existe vazio de todos os modos impossíveis de existência. “Eu” existo vazio de todas as formas impossíveis de existência. E vocês também.


Mas “Se eu baixar as minhas defesas, não ficarei vulnerável?” Há o exemplo das artes marciais: se estivermos tensos não conseguiremos reagir rapidamente quando alguém atacar. Se as barreiras da preocupação excessiva com o “eu” estiverem baixadas, estaremos totalmente atentos ao que se passa. 


É o medo que nós temos que superar, visto que é o medo que está nos impedindo de baixar nossas barreiras de proteção. Mas nos machucamos justamente pq erguemos as barreiras, ao erguer essas barreiras estamos, na verdade, machucando a nós mesmos. Mas precisamos aprender isso através da experiência própria e do entendimento.”


Sem tempo para meditar?

O convite está feito. Agora cabe a nós termos coragem e paciência para seguirmos praticando e desvendando esse véu da ignorância sobre nós mesmos. A única habilidade que nós realmente vamos começar a aprender é soltar

Seguimos nos encontros mensais nos apoiando e elucidando as diversas situações com o olho do Darma

*Imagem de Binja69 por Pixabay

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