É melhor fazer terapia ou praticar meditação?

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Quem faz terapia pode praticar meditação? Dentro da nossa forma usual de vermos as coisas, nós meditamos como um tipo de aprimoramento “pessoal”. E a terapia seria a cobertura do bolo. Na inteligência da compaixão, observamos o sofrimento dos seres e o nosso também. Aspiramos ter meios de ajudá-los de maneiras temporárias e definitivas.

Toda terapia é válida, certamente. Considere procurar um profissional qualificado, que atenda suas necessidades. A questão é: vamos olhar para meditação como uma tentativa de consertar os nossos problemas pessoais, sem lucidez? Haverá sempre uma lacuna.

Laranja ou abacate?

Junto a meditação, vamos contemplar a inteligência das quatro qualidades incomensuráveis, em especial, começar com a compaixão (quinto passo do nobre caminho óctuplo). Ternura e abertura no coração são mais importantes do que as aspirações autocentradas… Por exemplo, por uma questão de ignorância fundamental, deixamos de lado a nossa verdadeira natureza e nos equivocamos em achar que somos os culpados pela nossa infelicidade.

Nem doce, nem salgado

Uma abordagem interessante é usar da terapia para melhorar um pouco a vida, as relações e ao mesmo tempo, se fazer do uso da meditação, da compaixão para conhecer a si mesmo, a sua própria mente. As abordagens terapeuticas são úteis para gerarmos meios e alternativas para lidarmos com as dificuldades. Porém, uma vez reconhecidas, nossas inquietações são internas, e se tornam um recurso, uma maneira mais sofisticada de aceitar as coisas como elas são.

Então, estamos comparando laranjas com abacates. Ora, ao invés de nos alegramos com o que há de melhor em cada fruta, estamos nos perguntando se é melhor misturá-las ou não.

Meditar para transformar

A transformação vem pelo encontro relaxado e não pelo exagero ou negação do que surge internamente. Por exemplo, as mudanças externas acontecerão independente do nosso controle, estamos preparados para isso? Se estamos empregados, não saberemos o momento em que seremos demitidos. Quando compramos um carro, qual o momento onde ele será trocado?

O tamanho do nosso horizonte depende daquilo que podemos descrever sobre nós mesmos e a realidade ao nosso redor. Assim, ao invés de seguirmos com mais dúvidas sobre quem somos, se fazer terapia ou não, que tal experimentarmos ambas? Simples.

Se estamos aflitos ou em situações desagradáveis, na perspectiva do Darma, a situação em si é revelada pela primeira nobre verdade. A compreensão da insatisfatoriedade, em seguida contemplamos a origem do sofrimento, há um caminho de cessação e do sofrimento e por fim, o caminho propriamente disso.

A terapia de um bodisatva é ajudar os seres a se conhecerem mais

Se conseguimos nos reconectar com a nossa verdadeira fonte de segurança e alegria, a bodicita, a nossa terapia é ajudar os outros a entenderem que são capazes de fazerem o mesmo. A própria noção de terapia, focada apenas em um falso sucesso pessoal desaparece. E aí, nos movemos sempre olhando cada ação interna e externa de modo a produzir benefícios verdadeiros e definitivos – a liberdade diante da reificação e fixação as identidades de samsara.

Nosso grande hobbie é a tendência de psicologar e coisificar nossas experiências a partir de coisas passadas ou futuras. Já falamos que resolver não resolve. Precisamos agora internalizar essa ação além do óbvio da bolha.

A venerável Thubten Chodron explica:

“Então, quando nós encontramos situações desagradáveis, dizemos: ‘Isso é exatamente o que o Buda se referiu na primeira nobre verdade. Esse sofrimento não acontece por acaso, nem é devido a alguma injustiça, que eu quero me livrar. Essa é uma maneira realmente diferente de encarar as coisas, e acho que isso é algo que, como ocidentais, talvez também orientais, realmente precisamos lutar muito.

Foi interessante que em uma conferência de professores em que participei, muitos dos professores estavam conversando profundamente sobre suas próprias dores pessoais e situações abusivas, tentando resolver tudo psicologicamente.

A certa altura, um dos professores disse: “Essa não é a primeira nobre verdade?” É exatamente disso que Buda estava falando. Por que vamos a grupos de terapia ou apoio, por que vamos a esse plano e a esse plano.

Entender o sofrimento para sair dele

Todas essas turbulências em nossa vida são exatamente da natureza do samsara. Buda nos instruiu a examiná-lo, a fim de desenvolvermos a determinação de nos libertarmos dele. Portanto, essa é uma atitude muito diferente.

Por isso, em relação à terapia, acho bom recordar a infância, mas não acho que seja sempre necessário, porque, de qualquer maneira, tivemos um número ilimitado de infâncias.

É impossível descobrir tudo o que aconteceu em todas as infâncias que já tivemos – ou mesmo tudo o que aconteceu em uma infância! Mas se pudéssemos apenas olhar para a natureza da existência cíclica, é disso que se trata.

Nossos pais não são perfeitos. Temos 45 anos e ainda estamos tentando chegar a um acordo com isso. Seria melhor simplesmente reconhecer ‘Sim, essa é a natureza do samsara. Há aflição (“Aflição” é a tradução que o Venerável Thubten Chodron agora usa no lugar de “ilusão”) e carma.

Essa dor que estou sentindo agora é por que estou praticando o Dharma. Porque se eu pudesse praticar o Dharma e perceber o vazio e desenvolver a bodhicitta, isso me libertaria desse tipo de dor. ‘”

E você? Acha que é possível lidar com dificuldades a partir de um caminho de mundo interno?

Imagem de Alexas_Fotos por Pixabay

Desde 2011, tem sua atenção e curiosidade roubadas pela meditação e a sabedoria milenar do Darma. É tutor do programa de formação de facilitadores do CEBB, sob orientação de Lama Padma Samten. Praticante no CEBB Recife (PE).

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